por Chico Felitti

Na hora de marcar uma entrevista com o dono do sebo Desculpe a Poeira, Ricardo Lombardi, 45, é preciso driblar seus compromissos diários. “Às 10h de amanhã, não posso. Preciso buscar meu filho no judô. A partir das 11h, estou mais tranquilo”, disse o jornalista por e-mail antes do encontro, marcado para depois do horário do judô.

O homem barbudo e tatuado sempre teve a agenda cheia de compromissos, mas eles eram de outra natureza até novembro de 2014. Lombardi havia editado uma das maiores revistas masculinas do país e era diretor do Yahoo! antes de pedir as contas e abrir uma loja de livros usados de 24 m².

A ideia do novo negócio nasceu enquanto ele ainda era empregado. “Fui deixando a carreira me levar, e acabei virando mais um executivo do que um jornalista. Parei de fazer as coisas que tinham me levado a escolher o ofício.”

Em uma visita à familia na Argentina, viu uma loja de livros usados que havia sido montada numa garagem. Pensou em fazer igual. Nas poucas horas que não estava trabalhando, começou a testar a viabilidade do negócio na prática, vendendo pela internet a biblioteca que juntara nas quatro últimas décadas.

Deu certo, o que propiciou uma mudança mais sutil do que as que acontecem por grandes acontecimentos e traumas. “Por que você precisa ficar doente, ter um câncer e se curar dele para mudar de vida? Eu penso muito na finitude. A gente não vai durar para sempre.”

Fachada do sebo Desculpe a Poeira

Fachada do sebo Desculpe a Poeira, no bairo de Pinheiros, São Paulo, onde Ricardo recebe com café os visitantes, atraídos pelas suas recomendações.

O Desculpe a Poeira, fica numa ruazinha do bairro de Pinheiros que guarda o máximo de semelhança com uma cidade de interior quanto permite São Paulo. É lá que o dono pede licença para alguns títulos que ocupam todas as cadeiras e recebe com café os visitantes, atraídos pelas suas recomendações.

Quando saiu uma matéria noticiando a história do executivo que tinha largado o mundo da internet para viver de vender livros de papel, o sebo passou a ter mais um tipo de clientes. “Algumas pessoas que estavam descontentes com suas vidas, seus trabalhos, começaram a vir para conversar, saber de mim.”

E ele se sentia qualificado para dar conselhos? “Falo um pouco da minha vida, que é a única coisa de que posso falar.” Um desses clientes que queriam consumir mais a coragem do dono do sebo do que os livros perguntou: “Mas você não sente falta do seu cargo?”. Ao que ele responde: “Foi quando eu me livrei do meu cargo que percebi que poderia ser qualquer coisa.”

 


“Não posso mais ir ao restaurante japonês da moda, passar o meu cartão e não me preocupar com dinheiro, como eu fazia antes.”


 

Antes mesmo de pedir as contas, abdicou do título do clube e a academia foi trocada pela corrida de rua. “Não posso mais ir ao restaurante japonês da moda, passar o meu cartão e não me preocupar com dinheiro, como eu fazia antes.” Mas pode fechar o sebo no sábado à tarde, rumar para a praia e só voltar na hora do almoço da segunda. Como de fato faz.

Um caso similar ganhou repercursão mundial. Graham Hill, o fundador do site de móveis de design ecologicamente sustentáveis treehugger.com, escreveu para o “New York Times” sobre viver em um apartamento de 40 m2 com dez camisas e 10% dos livros que ele chegou a acumular na vida. Seu texto de opinião “Living With Less” (vivendo com menos) foi um dos mais lidos e compartilhados de 2013 no site do maior jornal do mundo.

“A busca pelo consumo desenfreado é a regra, mas não precisa fazer sentido para todos. O autoconhecimento pode levar ao preenchimento apenas com a concretização de necessidades mais simples. E há um crescente de pessoas que se dá conta disso”, diz o filósofo Carlos Roberto Drawin, da Universidade Federal de Minas Gerais.

Um investidor já perguntou se ele pensava em abrir uma filial. A resposta ele deu em forma de piada: um executivo em férias encontra um pescador. “Por que você não compra um barco maior e abre uma peixaria?”, pergunta. “Pra quê?”, questiona o pescador. “Para poder comprar outros barcos e fundar uma empresa”, explica o homem de negócios. “Mas pra quê?”, pergunta de novo o homem do mar. “Para poder ganhar bastante dinheiro, comprar um barco e poder vir pescar nas férias”.

No lugar de peixe, o dono do sebo diz pescar tempo, espaço e silêncio. “É do que eu mais sentia falta.”