Leo Jaime: Meninos não choram

Esta é a frase que todos os meninos escutam um dia. De alguém da família, no círculo de amigos da creche, na escola, time de futebol, clube. Homens, mulheres e crianças provavelmente repetirão esta frase um dia. Parece ser um consenso! Mas, afinal, o que querem dizer com isto? Que meninos não podem manifestar seus sentimentos? Ou que não deveriam ter estes mesmos sentimentos? Que não deveriam nem ter mas, caso isto acontecesse, deveriam fazer o favor de não expressar? Afinal, a frase se refere a meninos e não a crianças. Pode-se deduzir que crianças podem chorar; se forem meninas. Seguindo com o raciocínio: se meninas podem e meninos não, qual seria a razão? Meninas têm direito a expressar suas emoções? Têm o direito de sentir e expressar, sem pudor, os tais sentimentos que meninos não deveriam ter? Por quê? Porque são mais “delicadas” e “sensíveis”? Supõe-se que os gêneros definam assim a sensibilidade? Mas meninos não podem chorar porque precisam mostrar que são fortes? Isto significa que meninas podem se expressar porque são fracas? Afinal, o que se quer dizer com esta frase? Vale uma reflexão, não é?

Um dia destes vi uma amiga repreendendo o filho de 4 anos dizendo pra ele engolir o choro. Dizendo que ele não era “florzinha” pra ficar chorando. E esta é uma amiga que, no dia a dia, luta contra as desigualdades de gênero e contra os preconceitos em geral! Pois é. Mas ela, provavelmente sem perceber, queria ter um menino forte, durão, que engolisse o choro. Quando a sua mãe te pede pra esconder seus sentimentos ou manifestá-los de forma reprimida, ela está construindo um mundo. Um mundo que, evidentemente, não a satisfaz. Ela está pedindo para que o homem que, talvez, um dia, vá se relacionar com a filha de alguém, não faça contato com seus sentimentos, não tenha medo, não se sinta inseguro, não seja sensível, e ele provavelmente vai, sem saber muito bem o porquê, mas ciente que é o que dele se espera, evitar sentimentos que o fragilizem. E, quando isto acontecer, ele vai ser tosco e bruto consigo mesmo e com quem com ele se envolver. Evitando ao máximo a experiência que “amolece” o coração e lhe enxagua os olhos. Estará avisando que ao lidar com seu lado emocional, para evitar o vexame do choro, será melhor brincar no raso.


Diante da afirmação reincidente que meninos não devem chorar, é natural que eles entendam que manifestações de ternura, afeto, inocência, ingenuidade, sejam também, de alguma forma indesejáveis.


 

Meninos não choram. A eles cabe o lado frio e duro da vida. Alguma razão deve haver para que eles não recusem certos trabalhos. Você vê um incêndio e são raras as mulheres a se meterem nas chamas. Você vê o esgoto estourado numa cratera na rua e quase nunca há mulheres mergulhadas nos dejetos, tentando consertar a sujeira. A gente vê filmes como Tropa de Elite, ou Nascido para Matar, com aqueles treinamentos barra pesada, que visam criar uma casca grossa em soldados que vão protagonizar cenas violentíssimas e, em geral, são homens os personagens. Nada disso justifica ou explica o absurdo que é mulheres ganharem menos que homens para exercer a mesma função profissional. Mas é só olhar nos índices de acidentes de trabalho para saber que as posições mais perigosas, mais danosas à saúde, são ocupadas por homens. Tanto que nos últimos anos o número de mulheres vitimadas por acidentes durante o trabalho vêm aumentando, proporcionalmente à equiparação salarial. Isto inclui se envolver em trabalhos mais perigosos. Quem disse que elas não podem ocupar uma função de soldar metais a 150 metros de profundidade em uma plataforma de petróleo? Claro que podem. Talvez não queiram. Mas, e aí fica a dúvida: homens podem não querer? Homens podem dizer, por exemplo “Eu não quero ir para a guerra’? Deveriam poder.

Jaqueta Mas não sou Florzinha

As leis trabalhistas acham que o homem não precisa de seu bebê, que o bebê não precisa de seu pai e nem a mulher precisa do companheiro quando o filho nasce. Para a mãe são meses ao lado do filho recém-nascido, para o pai são dias. O que a lei diz com isso? Que homens não são necessários em casa. A gente pode até achar que a lei sugere que homens não gostam de bebês tanto quanto mulheres. Ou que mulheres são, por natureza, mais aptas a cuidar de bebês do que homens. A lei sustenta que homens devem ser provedores e mulheres podem ser provedoras mas também devem ser cuidadoras. Afinal, o que impede um homem de executar as duas funções, assim como uma mulher? Achar que homens vieram fisicamente impossibilitados de lidar com bebês ou, pior, que não desejam isto, é um preconceito. Mas confirma a tese de que homens não são muito aptos aos sentimentos, e, quiçá nem mesmo merecedores deles.

Diante da afirmação reincidente que meninos não devem chorar, é natural que eles entendam que manifestações de ternura, afeto, inocência, ingenuidade, sejam também, de alguma forma indesejáveis. Ou, ao menos, que isto são aspectos infantis na constituição do jovem macho que será competitivo, ameaçador etc. Há uma tácita e silenciosa premissa no mundo machista: uns nascem para martelo e outros para pregos. Os que choram são os pregos. Por isto cobra-se dos meninos que eles sejam os que batem e não os que apanham dos coleguinhas. Quando eles fizerem amigos, esta amizade se confirmará sempre “zoando” o amigo, fazendo com ele brincadeiras desagradáveis e, por vezes até físicas, sem que ele possa reclamar. Amigo é o que aguenta as brincadeiras. O bullying é uma prática absurdamente comum no mundo dos meninos. Com amigos, em forma de brincadeiras e com os outros como forma de intimidação. Raras as exceções, porque há gente de todo tipo, imagino que de fato ninguém goste disso. Mas é como vem sendo ensinado e colocado em prática desde que o mundo é mundo. Ver um amigo e dar um sorriso, dizer que está com saudade, dar um abraço e, quem sabe, um beijo caloroso, não será visto com bons olhos se os protagonistas forem dois meninos, dois rapazes, dois homens.

Se a gente não falar dessas coisas, se a gente não perceber nos pequenos detalhes do cotidiano, onde o monstro que é o machismo dorme, come e se educa, nunca nos livraremos dele.

Se eu estiver completamente equivocado em minhas suposições, não se importe com isso. A luta não é comigo e nem contra meus argumentos. Mas, faça como eu, procure no seu dia-a-dia, no seu círculo, nos seus atos e palavras e até nas suas brincadeiras, os traços do machismo se perpetuando. E livre-se disto! Converse.

Meninos choram. Homens choram. E podem crescer se compreenderem a raiz de suas angústias e tristezas. Precisamos aceitar este homem, precisamos permitir a ele a entrada no lado quente e amoroso da vida. Talvez isto cause resultados mais rápidos e eficazes na luta contra as desigualdades. Todas as desigualdades.