Por que não temos grandes filmes sobre essa paixão planetária?

O cinema está em dívida com o futebol. Quando a gente pensa no boxe, por exemplo, há filmes como Touro Indomável, com Robert De Niro, e Menina de Ouro, do Clint Eastwood. Sem falar no maior clássico da arte cinematográfica da minha adolescência: a série Rocky, o Lutador, com Sylvester Stallone. Há No Campo dos Sonhos, sobre beisebol. Match Point, que tem o tênis como pano de fundo.

Na literatura, muitas vezes a fonte para os filmes, acontece a mesma coisa. Recentemente, Sérgio Rodrigues lançou O Drible, um romance que trata da relação entre pai e filho tendo o futebol como universo.

Eu tive a oportunidade de conversar com o Sérgio e também com o Ugo Giorgetti, autor do ótimo Boleiros, sobre a questão. E a gente constatou que o futebol é mais bem servido tanto no cinema quanto na literatura pelo documento, pela grande reportagem que vira livro. Há bons documentários e boas biografias. O que pega a ficção.

Chegamos a uma reflexão interessante que compartilho com vocês: além de ser difícil de ser filmado (tecnicamente é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, fica tudo meio fake com atores), o futebol já é um enredo pronto. É cinematográfico por natureza. Acontece de tudo em um campo, estamos acostumados a forjar heróis e vilões a cada fim de semana.

Histórias épicas de superação, dramas, conquistas fabulosas. Tragédias. Veja o caso do Ronaldo. A história dos joelhos saindo para passear, aí o cara fica um tempão parado, volta no ano da Copa e vira um grande herói marcando dois gols na final. Depois vem jogar no Corinthians e estreia com gol contra o Palmeiras. Sem falar em casamentos em castelos, travestis na avenida e tudo o mais. Se alguém aparece com um roteiro assim, cheio de clichês, estúdio nenhum compra a história.

O caso do Diego Costa. Brasileiro, família pobre lá de Lagarto, no Sergipe. É bom de bola, arruma um bico no Barcelona de Ibiúna e alguém o leva pra Portugal. Do Braga pro Peñafiel, deste pro Atlético de Madrid. Tem 19 anos e acaba emprestado para vários times da Espanha. Até que volta e explode. Artilheiro, ganha títulos. É sondado pela seleção da Espanha, mas aí o Brasil finalmente presta atenção nele. Felipão, pra tirar o dele da reta, o convoca. Mas não garante presença na Copa. Ele tem a certeza da Espanha e a dúvida do Brasil. No Brasil, torcem o nariz porque, afinal, se ele não jogou em um grande aqui não pode ser tão bom.

Aí, entre o certo e o duvidoso, ele prefere polidamente defender o país que lhe deu todas as oportunidades. E vem o Felipão e o pinta como um traidor da pátria. Mais: ele ganha o Campeonato Espanhol e leva o Atlético de Madrid para a final da Liga dos Campeões, o maior torneio de clubes do mundo. Contra o grande rival, o Real Madrid. Mas se machuca no jogo do título espanhol e deixa o campo com a coxa doendo. Dúvida para a final. A lesão é de grau 1, o mais leve. Mas uma semana é pouco para recuperar. E o que fazem os cartolas e médicos do clube grande europeu? Botam o sergipano em um jatinho e o mandam para a Sérvia. Lá, Diego vai ficar aos cuidados de Marjiana Kovacevic. Sensual a la Morticia Adams, ela se diz formada em farmacologia. No mundo do futebol, é conhecida por curar milagrosamente lesões nas pernas dos craques. Van Persie e Robben já havia passado pela sua maca. O segredinho da Mariana: massagens incríveis utilizando placenta de égua. Isso: placenta de égua. Diego volta do atendimento e aparece na véspera do jogo saltitando no treino, lépido. E o que acontece no grande dia? Joga 8 minutos e sai pateticamente com a coxa latejando. E o Atlético perde o título europeu em um jogo dramático.

Com a realidade assim, nos rendendo enredos de Oscar a cada dia, eu pergunto: pra que ficção?

 


 

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