Quarta parada: Andes

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Os dedos formigam. A temperatura, apesar do sol, era de cerca de -6°.

Dentro do carro, silêncio absoluto. Apenas o barulho do velho motor do fusca se fazia presente. Á nossa volta, curvas, nuvens e uma subida interminável. O tamanho? Cerca de 400m a mais do que a metade do Everest, que tem 4.725m acima do nível do mar. O nome do desafio: Cordilheira dos Andes.

Tudo começou na madrugada de sábado, dia 14 de maio. Assis Brasil, nosso último pouso, fica mais ou menos a 230m do nível do mar; é cerca de 20 vezes mais baixa que o nosso destino final. Seria importante seguir as orientações dos peruanos sobre os cuidados que deveríamos ter antes e durante a subida.

Mascar e fazer chá com folha de coca. Tomar remédio para Soroche, que é um mal da atitude, a cada oito horas e dividir a viagem em etapas para o corpo acostumar com a falta de ar.

Fizemos a primeira parada em Mazuco, cidade bem próxima ao início da grande subida, que levaríamos cerca de 8 horas para concluir. O dia nem havia clareado e já estávamos dentro do fusca. O fuso diferente em 2 horas acabou sendo um facilitador, pois acordamos relativamente cedo se comparado ao horário local.

As primeiras horas foram divertidas. As curvas eram motivo de muita risada e de fotografia. Era possível ver algumas lhamas e as casas antigas dos andianos que ainda habitam a região; eles vivem de forma extremamente simples.

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Quanto mais subíamos, porém, mais deserta e fria a região ficava.

Telefones de emergência ao longo da rodovia não existem. Iluminação? Aquelas estradas nunca devem ter visto um poste de luz sequer. Trafegar durante a noite era um risco. Sorte que saímos cedo, pois nossa chegada em Urcos, região próxima ao vilarejo em que nos hospedamos, aconteceu no começo da noite.

Após os primeiros 3.500m de altitude começamos a ter problemas para falar, faltava voz. Passamos a economizar não só na fala, mas também nos gestos e até na respiração. O fusca também começou a falhar; faltava ar para o motor (comburente). Uma bexiga que estava no carro, de tão inchada pela pressão, explodiu antes de chegarmos aos 4.000m de altitude.

O coração parecia disparar, a cabeça doía e a sensação de formigamento dos dedos era preocupante. Mesmo tomando chá de folha de coca, soruche e fazendo pausas programadas, a sensação não era das melhores. Por um instante achei que meu coração iria explodir. A subida parecia não ter fim. Ninguém sentia fome, nem sede, provavelmente efeito colateral do chá de coca.

Naquele momento surgiu uma placa indicando que Pirhuayani estava a 500m. Aqueles poucos metros não significavam chegar ao topo da Cordilheira dos Andes; faziam fronteira, na verdade, com os nossos próprios limites. Os 500m que separam a subida da descida. O corpo lento, a sensação de ter o coração acelerado, a agonia para que tudo aquilo passasse o mais rápido possível, transformaram aqueles 500m nos mais longos das nossas vidas. Era nossa linha de chegada.
Após algumas curvas, chegamos finalmente ao limite terrestre: 4.725m acima do nível do mar. Paramos rapidamente. Assim que saímos do carro, porém, os efeitos da altitude se tornaram mais intensos; o chão parecia flexível como uma gelatina. Tivemos que fazer uma pausa forçada para descansar. E só aí percebemos a beleza que estava à nossa frente. Não havia ninguém por perto. Mesmo em uma época quente para os Andes, o gelo estava por toda parte.

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Assim que melhoramos, partimos para a próxima etapa: encarar a descida. As curvas, além de muitas, beiram a montanha. Qualquer erro poderia fazer com que o fusca despencasse alguns mil metros de altura abaixo. Fazer esse percurso durante a noite não era uma boa ideia.

A difícil decida durou algumas horas. Mas as lindas imagens do topo compensaram. Impossível não lembrar o tempo todo de uma beleza daquelas.

Até a próxima semana.


 

*Natanael Sena é autor do Projeto Vai de Fusca, em que narra as aventuras dele e do pai, Francisco Gomes, dentro de um fusca de 1984 pela América Latina. Para ele, toda e qualquer fronteira pode ser cruzada; basta vontade. Pós graduado em Comunicação pela USP, Marketing pelo IBMEC-RJ e Marketing Intelligence pela Univ. de Lisboa-PT, Natanael já publicou três livros – no “Vai de Fusca”, de 2014, ele conta as aventuras no fusca da família. Natanael e Francisco estão atualmente na estrada rumo a Lima, no Peru.

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