A vida de Oscar Niemeyer é cheia de casos, curiosidades e momentos reveladores. São elas que ajudaram a criar o mito e que de certa forma revelam a personalidade e a magnitude artística do arquiteto. Conheça a seguir algumas delas.


Os primeiros anos

Filho de Oscar de Niemeyer Soares e Delfina Ribeiro de Almeida, Oscar Niemeyer nasceu na rua Passos Manuel, em Laranjeiras, cujo nome seria mudado para Ribeiro de Almeida em homenagem ao avô do arquiteto, o ministro do Supremo Tribunal Federal Antônio Augusto Ribeiro de Almeida. Niemeyer teve uma vida de classe média abastada; costumava relembrar seus primeiros anos como um período de diversão: “Parecia que a vida era um passeio”. Queria ser jogador de futebol e chegou a treinar como meia-direita do Fluminense, seu clube do coração. Não demorou para descobrir que não estava talhado para a função e trocou os campos pela boemia das praias e noites cariocas.

A vida hedonista se estendeu até os 21 anos: em 1928 iria casar-se com Annita Baldo, uma “moça bonita e modesta”, filha de imigrantes italianos. Com a aproximação do casamento e com um futuro incerto, Niemeyer foi trabalhar na tipografia do pai para sustentar a futura família. O casamento durou até 2004, quando Anitta faleceu, e dele nasceu uma única filha, Anna Maria Niemeyer, nascida em 1932. O fato de ter uma única herdeira não impediu uma prolífica descendência: a partir da filha vieram cinco netos, treze bisnetos e quatro trinetos. Anna faleceu em 2012, aos 82 anos.

No ano seguinte, já de aliança no dedo, Niemeyer continuava sem saber qual rumo deveria tomar em sua vida. Pensou sobre as coisas que mais gostava e sobre suas habilidades. Bem, ele gostava de futebol, mas já havia desistido a essa altura do campeonato. A outra coisa que o atraia era o desenho.  “Eu gostava de desenhar. Quando era menino eu gostava de desenhar com o dedo no ar, e minha mãe me perguntava, ‘o que você está fazendo? ’, e eu respondia ‘eu tô desenhando’; de modo que foi o desenho que me levou para a arquitetura”, contou em um depoimento. Foi assim que ingressou na Escola Nacional de Belas Artes.destaque-oscar-niemeyer-001


Oscar encontra Lucio

Durante o curso na Escola Nacional de Belas Artes, Niemeyer descobriu que amava as formas e que a arquitetura lhe propiciaria condições para se expressar. Começou a procurar um mestre que o introduzisse na profissão. Em 1934 foi levado ao escritório de Lucio Costa e Carlos Leão. Lucio, um jovem e promissor arquiteto, achou que o rapaz tinha “cara de malandro”, mas resolveu aceita-lo como aprendiz. E mesmo sem um centavo no bolso, Niemeyer aceitou trabalhar de graça, pois sabia que aquele era o seu destino. Ali nascia uma das mais famosas parcerias da arquitetura mundial. destaque-oscar-niemeyer-002


A primeira obra solo

A estreia solo aconteceria um ano depois, em 1937, com a Obra do Berço. Niemeyer não cobrou nada pelo projeto. Ou melhor, pagou do próprio bolso. Durante a execução do prédio que servia a uma obra de caridade, o arquiteto percebeu que parte do projeto havia sido alterada: o brise-soleil (quebra-sol) havia ficado de fora por uma questão de custo. Niemeyer, então, pagou a instalação para que a ideia original fosse mantida.

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Obra do Berço – Primeiro projeto de Niemeyer depois de formado.


Niemeyer e Le Corbusier

Em 1936 Niemeyer participou do grupo chefiado por Lucio Costa que construiria um marco da arquitetura moderna no Brasil: o edifício do Ministério da Educação e Saúde (MES), atual Palácio Capanema. Foi quando conheceu aquele que seria sua grande influência, o franco-suíço Le Corbusier, um dos mestres da arquitetura moderna mundial que viera ao Brasil como consultor do projeto a convite de Lucio Costa e do ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema.

Corbusier ficou menos de 15 dias no Rio de Janeiro e, insatisfeito com as condições de trabalho (haviam dito que o terreno seria de frente para o Pão de Açúcar, mas trocaram por outro), fez um rápido croqui e foi embora. Durante o período de sua estadia foi acompanhado por Niemeyer, que acabou desenhando seu próprio croqui baseado no desenho inicial, de Lucio Costa. Mostrou-o a Carlos Leão, que gostou do que viu. Mas Niemeyer considerou aquilo apenas um exercício e jogou o desenho janela a fora. Quando Lucio chegou ao escritório, Leão comentou sobre o croqui e Niemeyer teve de ir vasculhar a calçada em busca do papel. O edifício acabou sendo feito a partir do desenho de Niemeyer.

Os caminhos de Le Corbusier e Niemeyer voltariam a se cruzar em 1947. O franco-suíço e o brasileiro faziam parte do grupo de dez arquitetos convidados para projetar a futura sede da Organização das Nações Unidas. Inicialmente Niemeyer não havia levado nenhum projeto, mas o próprio Corbusier cobrara que ele apresentasse um. Niemeyer foi para o hotel e desenhou sua versão em três dias. Resultado: seu projeto, o de número 32 na inscrição, foi aprovado unanimemente. Corbusier, entretanto, pediu que parte de seu projeto (de número 23), fosse utilizado. A fim de não desagradar o mestre, mas um tanto contrariado, Niemeyer aceitou. E o projeto do famoso prédio da ONU ganhou o número 23/32.

Niemeyer foi um discípulo de Le Corbusier, mas, ao longo dos anos, os conceitos básicos de mestre e aluno foram se distanciando a medida que Niemeyer também se tornava um mestre. O arquiteto brasileiro tinha isso bem claro para si:

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Atual Edifício Gustavo Capanema ou Palácio Capanema (também conhecido pelo seu uso original, o Ministério da Educação e Cultura – MEC)

“A nossa arquitetura é muito diferente do Le Corbusier. Nós caminhamos para uma arquitetura mais de acordo com o nosso clima: mais leve, mais vazada, vencendo o espaço. E também demos a ele a contribuição que ele nos deu. Nós tivemos influência dele, mas nos últimos trabalhos ele também teve influência da nossa arquitetura. ”


O Conjunto da Pampulha

Numa tarde de 1940, Niemeyer estava hospedado no Grande Hotel de Belo Horizonte quando alguém bateu à porta do seu quarto. Era o prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitscheck.  “O que vi à minha frente foi uma pessoa dinâmica demais. Ele queria o projeto do Cassino da Pampulha pronto para o dia seguinte”, relembrava Niemeyer. E não era apenas o Cassino: o entusiasmado político queria, de fato, que ele projetasse o Conjunto da Pampulha – um complexo formado pela Igreja de São Francisco, um cassino, a Casa do Baile, um clube e um hotel (que não foi realizado). “Pampulha foi o início de Brasília. Em Pampulha minha ideia já era fazer uma arquitetura diferente. Naquele tempo a arquitetura não compreendia o concreto armado. Eu, então, procurei introduzir a curva, que é a solução natural do concreto”.

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Conjunto Arquitetônico da Pampulha

Para a Igreja de São Francisco, a Igreja da Pampulha, Niemeyer queria “uma arquitetura mais leve, mais ligada à cultura do nosso país, mais vazada, mais próxima às velhas igrejas de Minas Gerais”. As linhas do templo, porém, escandalizaram os religiosos. Em 1947, quatro anos após a inauguração, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) tombou a igreja para protege-la dos ataques liderados pelo arcebispo mineiro. 


Niemeyer em Brasília

Em 1956 Juscelino voltou a entrar novamente na vida de Niemeyer. Com o já conhecido entusiasmo, o agora Presidente da República visitou o arquiteto no Rio de Janeiro e encomendou: “Quero fazer uma capital diferente. Não quero uma capital provinciana; quero uma coisa bonita, que mostre a importância do País”.

Niemeyer, assim como a maioria das pessoas na época, achava Brasília distante demais. A determinação de Juscelino, contudo, o contagiou. “Brasília foi assim, uma aventura, cheia de problemas, de desencontros, de desconforto, mas havia a determinação do JK. ”

Niemeyer assumiu chefia do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Novocap, a empresa formada para promover a construção da nova capital. Aceitou criar os edifícios públicos principais, mas não quis desenvolver o plano urbanístico da cidade. Encarregado de organizar o concurso para escolha do plano-piloto de Brasília, Niemeyer participou também da comissão julgadora. E o projeto urbanístico vencedor foi o que era assinado por seu amigo e ex-patrão Lucio Costa, que previa o traçado conhecido da cidade, em forma de cruz. Niemeyer sempre fez questão de salientar que a ideia urbanística era do amigo e que em Brasília sua função era a de construir prédios.

“Não me importa dizerem que sou o arquiteto de Brasília, se ao mesmo tempo disserem que Lúcio Costa é o seu urbanista. A ele coube a tarefa principal: projetou a cidade, as ruas, as praças, os volumes e espaços livres. Minha colaboração foi mais modesta, apenas os palácios governamentais. ”, disse em uma entrevista.destaque-oscar-niemeyer-004



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