Ricardo Moreno

Faz quinze anos que penso em te escrever essa carta. Desde quando me mudei para cá, em fevereiro de 2002. Nunca tive coragem. Estávamos nos conhecendo. Achei que pudesse interpretar como alguém desesperado por um relacionamento sério enquanto você só curtia um flerte. Eu bem jovem, vinte e poucos anos, e você exultante e dominadora, fazendo me sentir aquele garoto da música do Leoni. Milhares de tentações. Era impossível resistir aos seus mistérios. Ou aquela cantada pela Suzanne Vega que diz que Nova York é uma mulher e que um dia ela vai te fazer chorar.

Mas se a gente não tem Suzanne Vega (ou LCD Soundsystem, ou Frank Sinatra, ou Beastie Boys, ou Jay-Z, ou Lou Reed, ou Tom Waits…), a gente tem Sabotage (“Na Zona Sul”), tem Criolo (“Não Existe Amor em SP”), Inocentes (“Pânico em SP”), Caetano (“Sampa”), Demônios da Garoa (“No Morro da Casa Verde”) e por aí vai…

Apesar do nome masculino, de santo, também te considero uma mulher. Há quem diga que você é muito segura de si. E que demanda demais da gente. Tendo a pensar o contrário. É na tua insegurança que você muitas vezes se perde. É na tua vocação materna, de querer agradar e amar a todos de igual maneira, que você pode decepcionar.

Tenho muitos amigos que se cansaram de você. Planejam ir embora: para Lisboa, para Ilhabela, para Los Angeles, para Curitiba. Nesses 15 anos – que passaram como 15 minutos; há caixas que eu ainda não abri desde que cheguei! – muitos vieram, alguns ficaram, outros já partiram. Eu mesmo fui e voltei duas vezes. Eu sempre volto, você sabe. Eu sou o que você me moldou, com minhas dores e prazeres. Se conheço o mundo e descobri amores, foi graças a você. Nosso amor se confunde. Também penso em passar um tempo em Lisboa, em Ilhabela ou Los Angeles (Curitiba por enquanto não, já passei minha infância e adolescência lá). Mas é um tempo. Relacionamento aberto. Você sabe que eu sempre volto pra você. Eu te amo. Incondicionalmente.

Mas vivemos tempos estranhos, sabemos. Não só aqui. É Trump prum lado, Crivella pro outro; Dória prum lado, Marine Le Pen pro outro. O mundo tá meio bizarro. Cadê aquela tal Era de Aquário que todo mundo falava? Hoje, no seu aniversário de 463 anos, me bateu a incerteza sobre o que, de fato, comemorar. Então, resolvi perguntar aos meus amigos, os daqui e os de fora, o que faz eles te amarem neste ano em que os muros estão cada vez mais altos – e cinzas. Eis algumas coisas que me contaram.

 

• As ciclofaixas e as ciclovias• A pluralidade.

• As festas de rua como Calefação Tropicaos e Pilantragi.

• O House of All.• A possibilidade de ir ao Mandíbula e ao Baretto numa mesma noite!

• A Avenida Paulista fechada para carros aos domingos.

• Todos os SESCs.• As feiras de rua.

• A Praça Roosevelt.

• O Minhocão nos fins de semana.
• O Mocotó.

• O Checho Gonzales.

• O carnaval de rua.• Restaurantes tocados por refugiados. E que são um sucesso.

• O Centro Cultural Rio Verde.

• Livrarias de rua como a NoveSete, a Desculpe a Poeira e a Patuá.

• O Dekmantel, o Lollapalooza, o Popload e o MECA.

• Os grafittis. Eles vão resistir.

Ricardo Moreno é jornalista e nome por trás da plataforma The Summer Hunter.

Declare você também seu amor por São Paulo!


 

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