Uma sentença: “O homem é o único animal que ri. E é rindo que ele mostra o animal que é.” Ou o apodo: “O cadáver é que é o produto final. Nós somos apenas a matéria prima.” Ou o dito impecável: “Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados. ” Todas estas máximas têm um único autor: Millôr Fernandes. Escritor, tradutor, desenhista, dramaturgo e jornalista, genial frasista – não exatamente nesta ordem, mas tudo ao mesmo tempo e misturado –, Millôr deixou sua marca na cultura brasileira de forma única e inimitável.

Na hora de ser registrado, a péssima letra do escrivão fez Milton virar Millôr

Millôr nasceu no Méier em 16 de agosto de 1923 (ou 27 de maio de 1924 na carteira de identidade). Veio ao mundo como Milton Viola Fernandes, mas a péssima letra do escrivão tornou-o Millôr, nome que adotou com alegria e desembaraço. Ficou órfão do pai aos dois anos de idade. Passou a infância ao lado dos irmãos e da mãe, que morreu quando Millôr tinha 12 anos. Sobre o episódio, recordou em entrevista:

“Os meus pais morreram cedo. Nós éramos classe média, tínhamos uma casa no Méier, de dois andares, quatro quartos. Bem, ele morreu com 36 anos, minha mãe tinha 27, quatro filhos, nenhuma experiência, e aí alugou metade da casa para uma irmã e ela começou a costurar pra fora. O que significa que nós descemos pro proletariado. Quando ela morreu, nós viramos lúmpen. Então eu comecei a trabalhar com 14 anos e alguns dias eu não tinha dinheiro pra comer, literalmente.”

Esse período, que ele definiu como “dickensiano” (“vendo o bife ser posto no prato dos primos, sem que o órfão tivesse direito”), o obrigou a ir à luta: aos 14 anos iniciou, por indicação do tio, sua carreira como jornalista no periódico O Jornal. Um ano depois, ingressaria na revista O Cruzeiro como repaginador, contínuo e faz-tudo. Ali criaria sua identidade como desenhista e humorista, assinando como Vão Gogo a coluna intitulada Poste-Escrito, na revista do grupo, A Cigarra. O pseudônimo seria usado durante muitos anos, mesmo no período áureo d’O Cruzeiro.

Encontro entre Millôr e Walt Disney com um exemplar da Revista O Cruzeiro

A relação de Millôr com a imprensa sempre foi tumultuada. Saiu e entrou de redações, fundou, fechou e salvou periódicos. Em 1961 trabalhou durante apenas uma semana na Tribuna da Imprensa: foi mandado embora por escrever um artigo sobre a corrupção nos meios de comunicação. Em solidariedade, demitiram-se também os editores Mário Faustino e Paulo Francis.

Em 1963 foi exonerado dos Diários Associados depois de uma enxurrada de protestos por parte de leitores católicos devido a publicação dos desenhos intitulados A Verdadeira História do Paraíso (é sempre bom lembrar que Millôr era ateu e iconoclasta). Pressionado, o jornal o despediu, o que causou a reação de jornalistas, artistas, escritores e até de outros órgãos de imprensa. Um verdadeiro bafafá, bem ao gosto de Millôr.

Um ano depois, em 1964, e poucos semanas após o golpe militar, fundou a revista quinzenal Pif-Paf, da qual participariam alguns dos principais nomes do humor brasileiro, como Ziraldo, Jaguar e Stanislaw Ponte Preta. A revista durou apenas oito números e foi fechada pelos militares. “Eu fiquei devendo 21 mil cruzeiros; meu valor na praça, então, era mais ou menos 500 cruzeiros mensais”, relembrou Millôr.

O Pif-Paf foi uma espécie de embrião de um dos jornais alternativos mais espetaculares já publicados no Brasil: O Pasquim. Criado por Ziraldo e Jaguar e outros expoentes da intelectualidade da esquerda nacional, o semanário, óbvio, arrumou encrencas com a ditadura. Numa delas, em novembro de 1970, todo o staff do jornal foi preso por dois meses. Coube a Millôr, com ajuda de Henfil, Chico Buarque e Glauber Rocha, entre outros, tocar a redação. Em 1972 Millôr assumiu a direção do Pasquim, na qual ficou até 1975. Millôr também teve longa história com a revista Veja, onde ficou de 1968 a 1982 – sua saída se deu por causa do apoio que mantinha a Leonel Brizola. Retornaria à revista em 2004, assinando coluna até 2009.

Em meio a essa agitada vida jornalística, Millôr ainda arrumava tempo para ser prolífico escritor e autor teatral – entre suas peças está É…, que escreveu para Fernanda Montenegro, e Um Elefante no Caos, considerada uma obra-prima da dramaturgia nacional. Também foi tradutor respeitado, transpondo para o português obras de Pirandello, Tchekov e Shakespeare. Detalhe: Millôr aprendeu inglês como autodidata (“Me perguntam onde é que eu aprendi inglês. Eu nunca aprendi, mas eu tinha que ganhar a vida”).

Millôr, Suassuna e Veríssimo curtindo uma tarde na praia em 1999.

Millôr faleceu no dia 27 de março de 2012 e deixou um imenso legado. Espécie de polvo intelectual, abraçando com seus tentáculos as mais variadas atividades, acima de tudo foi um gênio de clareza ímpar. Por ocasião de sua morte, escreveu o amigo e jornalista Mauro Santayanna:

“Sua crítica não se limitava à política em senso estrito, aos governos e às instituições do Estado, mas atingia, em seu âmago, a sociedade contemporânea, com seus desavisos e submissão ao efêmero. Para isso, ele sempre se abasteceu dos clássicos gregos aos autores contemporâneos, passando, naturalmente, por Shakespeare, Goethe, Schiller, Molière, Racine e tantos outros. Ele era capaz de ir adiante das reflexões desses grandes autores, ao trabalhá-las em sua fulgurante inteligência. Ele usava a erudição para resumir a sua visão do mundo em frases curtas, certeiras, surpreendentes, definitivas”


Millôr + Reserva

A Reserva sempre teve inúmeros motivos par admirar Millôr Fernandes. Um artista brasileiro com orgulho, como a gente. Com uma opinião forte, como a gente. E às vezes polêmico, como a gente.

Com tantas semelhanças, resolvemos transformar nossa admiração em trabalho: assim nasceu nossa parceria. Com um inconfundível tom de crítica, os desenhos e frases permanecem supreendentemente atuais, graças ao talento atemporal do mestre Millôr.

 



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