Um bate-papo com Petula Silveira, a empreendedora que está modelando (para o bem de todos) o mercado de couro

Fala galera,

Não pode haver falta onde há excesso — e a conta é simples assim. Embora soe redundante, o que vemos na prática vai contra a matemática: toneladas de alimentos e produtos sendo desperdiçados diariamente, enquanto muita gente ainda carece de bens básicos.

Quem matou  charada óbvia e complexa foi Petula Silveira que, ao lado de sua sócia Amanda Py, criou a PP Acessórios, uma marca que  desde março de 2010 comercializa bens de couro feitos a partir das “sobras” da indústria calçadista.

Embora hoje ocupe uma nova ponta do mercado que, de certa forma, ajudou a criar, a empresária começou esse processo do outro lado da moeda: Petula seguiu os passos da família e passou a atuar desde jovem no mercado de sapatos. Era ela a responsável para desenvolver novos produtos para grandes e pequenas marcas, e o fazia com maestria.

O problema era que isso custava caro — à consciência e ao planeta. “Para criar um item, a gente comprava o que chamamos de ‘pele de aprovação’, que é basicamente uma peça inteira de couro que não seria amplamente aproveitada. Caso a cor ou mesmo a consistência do material não esteja de acordo com o proposto, aquela peça inteira seria descartada”, revela.

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Petula Silveira (esq.) e Amanda Py (dir.) – Foto: Divulgação

No decorrer de oito anos trabalhando ativamente no setor, Petula se viu imersa em uma sala cheia dessas peles de aprovação — material com qualidade mais do que suficiente para ser transformado em bolsas ou sapatos, mas que ficariam ali por tempo indefinido por uma simples questão mercadológica.

Incomodada com esse abate sem sentido cobrindo o escritório onde trabalhava, Petula escalou a expertise da designer e amiga Amanda para, juntas, comprarem aquele estoque “morto” e selecionar as peças que poderiam ganhar nova vida em outras vitrines.

O processo de metamorfose do bem deu tão certo que outros estoques foram comprados e mais couros excedentes foram submetidos à curadoria das moças, que deram destino nobre aos itens selecionados — e muitos, inclusive, foram embelezar o estrangeiro. “Ficamos surpresas com respostas tão positivas de clientes no exterior. Vendemos muito bem em Londres e Los Angeles, por exemplo”, conta Petula.

Por aqui, em terras brasilis, os negócios andam na contramão da crise, mas os bons indicadores só vieram depois de uma conscientização “à força”, como explica Petula: “a forma como obtemos nosso couro e fazemos os produtos da PP nos permitem trabalhar com um preço muito competitivo — vendemos uma saia mid, de couro, por 300 reais, por exemplo. Mas tem cliente que desconfia da cifra, achando que o produto é falso e/ou de qualidade duvidosa. Agora que a economia deixou os bolsos mais rasos, percebo que há mais diálogo e, assim que as pessoas entendem o nosso negócio, se mostram muito abertas a ele”. 

Para além da turbulência financeira do país, Petula atribui o sucesso da marca à maior conscientização das pessoas, e reconhece que a grande maioria dos clientes e amigos que encontra pelo caminho têm, sim, preocupação social e ambiental — duas frentes beneficiadas pelo modelo da PP, cujo ateliê fica em Porto Alegre. Há, ainda, uma loja no bairro de Pinheiros, em São Paulo.

Mirando um futuro mais sustentável, responsável e justo, Petula e Amanda seguem firme em sua proposta pioneira e estão contagiando quem as cerca: “minha família que sempre trabalhou no ramo de calçados, lembra?, ois aos poucos foram todos deixando o mercado”, segreda a empreendedora. Parece que o excesso de couro e de amor têm moldado maravilhas na família Silveira — e isso reverbera de forma positiva em todos nós.  

Beijo,

Rony Meisler

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