A moda, por mais contraditório que pareça, não é um ambiente exatamente inovador. Empresários, estilistas e fornecedores buscam um padrão de consumo, de cliente, da indústria, de desfile e tendências que não mais voltará

Está na hora de olhar pra frente  e convidar a tecnologia para entrar na festa do produto de moda.

No evento SxSW deste ano, realizado no mês de março em Austin, EUA,  o estilista norte-americano Marc Jacobs foi entrevistado pela Sally Singer, diretora criativa da Vogue America, sobre o tema The Fashion Designer in the Age of Social Media (O designer de moda na era das redes sociais, em tradução livre).

O cara é divertidíssimo, um figuraça carismático. Fez piadas, debochou do Instagram, explicou a relação com os fãs e suas pesquisas virtuais no Insta, mas não acrescentou nada realmente relevante ao tema.

O que chamou mesmo a atenção foi o diálogo:

Sally: Marc, o que você acha dos wearables? Tem interesse?

Marc Jacobs: Não.

Seco, definitivo e levemente arrogante. Risada geral na plateia.

Num evento onde se discute tendências e todos tentam parecer saber sobre o futuro, é sempre legal quando surge alguém do contra e banca o “não tô nem aí pra isso”.

Especialmente se este alguém for Marc Jacobs, o cara que colocou a gigante Louis Vuitton de volta ao topo da moda mundial e deixou a direção criativa da marca por vontade própria, depois de 16 anos. O gracejo de MJ, funciona como uma permissão para todo mundo relaxar um pouco nas aparências e descer do salto.

Marc Jacobs e a bolsa criada por ele em parceria com o Instituto Keith Haring para a Louis Vuitton, um dos maiores sucessos da grife de todos os tempos.

Mas na realidade, quando vemos Marc Jacobs desdenhando da tecnologia, vem a sensação de manutenção de um status quo, de um premiado estilista na zona de conforto. Um bom cenário pra disrupção, the calm before the storm…

Não que o nome ou a marca do genial Marc esteja a perigo ou decadente. Mas o próximo Marc Jacobs não vai surgir no tipo de mercado que o Jacobs surgiu. Provavelmente nem será um estilista.

 

Afinal, o que são os wearables

s wearables são a ponta mais evidente do casamento entre tecnologia e moda, mas o que faz a primeira ser extremamente necessária é entregar a alavanca criativa e funcional que já falta à segunda, além de fornecer as soluções de sustentabilidade que a sociedade quer e precisa.

Nos últimos 50 anos se fez de tudo na moda, com cores, proporções, recortes, texturas e revivals infinitos: nos últimos 20 anos o que vimos de revivals e inspirações dos 70 anos anteriores foi um loop enlouquecedor de nostalgia e falta de criatividade que se desgastou completamente – por exemplo, o grunge lançado nas passarelas por Jacobs lá no início dos anos 1990, e popularizado por Kurt Cobain, do Nirvana, está de novo na moda. Os anos 30 e 40 foram reinterpretados 1000 vezes. Os anos 60 e 70 idem. Pouco se olhou realmente pra frente. Segundo, porque sem mudança tecnológica não temos planeta que atenda à crescente demanda por consumo. E o crescimento do consumo no formato que conhecemos atualmente não vai gerar mais riqueza, apenas devastação.

Nesta hora é bom lembrar que as gigantes de tecnologia têm interesse neste mercado, sinergia nos negócios e caixa de sobra para se associar ou comprar marcas de moda mundiais. Não me admiraria ver parcerias entre Nike & Apple;  Puma & Facebook; Gap & Intel;  Adidas & Sony,  Hurley & Snapchat. Além da grana e tecnologia necessárias para viabilizar a nova geração do vestuário, algumas destas gigantes têm o canal de mídia pra empurrar estes produtos e o big data dos clientes. O Snap já tem óculos funcionando com seu app. A funcionalidade é bacana e totalmente relevante à ferramenta. Só falta convidar alguns designers de nível mundial pra fazer signature series e a coisa explode de vez, vira mania mundial.

Os Spectacles, os óculos do Snapchat

Há muito espaço para se inovar em Moda, não apenas na tecnologia do produto: no formato de apresentação das coleções, desfiles, experiência do usuário, interfaces de realidade, hacker-marketing, entrega e logística reversa ao fim do ciclo do produto, e por aí vai. Hoje na Reserva, estamos nos aventurando em iniciativas que acreditamos ser a realidade do mercado em 4 ou 5 anos.

São produtos sob-demanda, customizações, formatos de lojas, vitrines, entregas e outras loucuras que vamos contando por aqui.

Uma das mais recentes foi nossa loja sem estoque, que os gringos chamam de showrooming e nós achamos que é a essência da loja do futuro. Nossa loja do Fashion Mall, Rio de Janeiro, virou a loja física UseReserva.com. Qual a diferença para as demais? Digamos que cada loja precise ter um estoque de 2500 produtos. Quando se tem 60 lojas, você empenha 150.000 produtos na sua rede, que espalhados, em pouco tempo geram as sobras e faltas, lá e cá. Entre outros riscos e ineficiências. Até aqui foi assim. Por conceito a UseReserva.com não tem estoque no local, apenas uma peça de cada tamanho para o cliente experimentar. Assim que fecha a compra, o cliente decide: retira a peça no dia seguinte naquela mesma loja ou recebe em casa dele em até 3 horas.

A loja Reserva que não tem estoque. O cliente experimenta a roupa e recebe em casa, em 3 horas.

É um ganha-ganha: mais comodidade para o cliente, que não precisa ficar carregando sacolas pela rua ou shopping e pode receber tudo em casa (ou aonde indicar).

Mais facilidade para a equipe de vendas, que não precisa mais administrar estoques locais e podem se concentrar num atendimento melhor. Mais economia para a marca, que não precisa gerir a ineficiência de um estoque tão grande espalhado pela rede, convivendo com sobras e faltas, riscos de encalhe, liquidações, etc.

Com isso, a loja recebeu uma cauda longa de produtos – similar ao nosso site – que antes não caberia ali se precisasse de estoque local. Some isso à possibilidade de produção sob-demanda e chegaremos a uma combinação interessante. As vendas desta unidade já cresceram 70% nos mostrando que modelo é por aí.

Por fim, as big techs

Voltando às big techs citadas mais acima, é um erro encará-las como empresas de tecnologia restritas a um software ou produto. Tome Google e Apple como exemplo: têm iniciativas (já consagradas ou ainda promissoras) nos setores de telefonia, TV, carros robóticos, energia limpa, produtos de mapeamento e geo-localização. Disfarçam o monopólio de suas iniciativas originais apresentando-se como empresas de tecnologia diversificada. Ao mesmo tempo em que a exuberância de seu negócio original (no caso do Google, o buscador e sua astronômica receita com publicidade), não atrai atenção indesejada sobre as novas iniciativas.

Mas o que vai fazer a diferença é que as big tech podem se dar ao luxo de pensar em outras coisas além de ganhar dinheiro, como inovações de longo prazo no mercado alheio. Marcas de moda não podem. Mesmo as melhores precisam sobreviver num mercado de margens espremidas, gerando caixa desesperadamente para não quebrar ou, se tanto, conseguir projetar a coleção do ano seguinte.

E o Marc lá, todo pimpão, desdenhando dos wearables.

Esse vídeo produzido pela BBC é um exemplo da funcionalidade dos wearables: