Monique Evelle: empreendedorismo de raça, na raça

Fala galera,

Em pleno horário de pico de uma terça-feira qualquer, o pequeno salão no subsolo da BHouse estava lotado, contrariando todas as apostas. A “hora extra” voluntária fez sentido quando Monique Evelle tomou o microfone pra si e mostrou o porque de seus títulos: em 2015 foi apontada pela revista Cláudia como uma das jovens mais promissoras do país, e em 2017 foi também destaque da Forbes, além de entrar para a equipe do Profissão Repórter, levado ao ar pela Globo.

Criadora da ONG Desabafo Social, que educa e dialoga sobre o racismo, Monique uniu a veia social à empreendedora quando lançou, no ano passado, a Kumasi,  um marketplace para afroempreendedores.

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Fotos: Thays Bittar/Reserva

“O que me motivou a começar um negócio foram os eventos de startups tais quais conhecemos hoje, que me deixam muito frustrada. Qual a realidade que sobe ao palco? Uma porção de jovens que contou com apoio financeiro dos pais para dar início a um projeto pouco ou nada original. Pesquisei bastante sobre o assunto e coletei dados de diferentes fontes: o empreendedor afrodescendente ganha, em média, mil reais por mês como ambulante, manicure e outros negócios do tipo. Finalmente entendi que, na minha realidade, empreendedorismo é sobrevivência”, explica.

Apesar da clareza em relação a essa e tantas outras questões relativas à raça e gênero, Monique admite que era preciso ajustar os passos quanto a dinheiro e valores. “Sempre ouvi Racionais, mas eu só entendi agora a mensagem por trás daquele verso ‘preto e dinheiro são palavras rivais’.  Quando eu falava de social, de sociedade e comunidade e não cobrava cachê, tava tudo bem. Ninguém parecia valorizar o meu esforço intelectual — e é importante dizer que eu não aprendi nada da noite para o dia; não foi fácil. Foi juntando os pontos que a música fez sentido e a ficha caiu: opa, preciso virar esse jogo e pagar as contas. Isso é um trabalho, não é brincadeira. Hoje em dia sei exatamente o meu valor”, pontua.

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Formada em política e engenharia da cultura, Monique sabe que nem todo mundo teve a chance de vivenciar as suas descobertas e adquirir a mesma educação; e sabe, melhor do que ninguém, que a ignorância anda lado a lado com o preconceito — de ambos os lados. Por isso, o pilar central de seus trabalhos é sempre a comunicação munida de fatos e bons argumentos, e de preferência de forma descomplicada. “Se você for na quebrada e falar de “pitch”, provavelmente ninguém vai te entender. Como a gente pode falar de diversidade assim? Como esperar que algo mude? As coisas podem ser tão mais simples”.

Liderando pelo exemplo, a soteropolitana leva a sério a luta, tanto que, por iniciativa própria, montou um banco de dados de profissionais negros das mais diversas áreas, para que possa indicar quando lhe for solicitado. Ah, mas não espere por repetecos, viu? Monique trabalha é na base da rotatividade. “Nunca contrato o mesmo profissional duas vezes seguidas, porque é importante que o dinheiro circule e mais pessoas tenham a oportunidade de mostrar seu talento”, conta.  

“Mulher negra precisa ter nome e sobrenome, se não o racismo a chama do que bem entender.”

Essa visão pluralista da vida e do mercado facilitou muito os primeiros passos da Kumasi, que ainda funciona de forma, digamos, experimental. É que por enquanto o e-commerce conta com apenas 12 empreendedores de Salvador, mas outras 150 pessoas do Brasil todo aguardam na fila. Sem pressa, Monique revela que foi uma decisão sábia testar o mercado antes, e que no segundo semestre deste ano o site vai se abrir para o país todo.

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A resposta ao Kumasi foi surpreendente, pois, segundo conta a empreendedora, mesmo o marketplace sendo baseado na Bahia, 90% dos clientes são do Rio de Janeiro e São Paulo, e 67% são mulheres. Os números poderiam ser ainda mais expressivos se todos tivéssemos mais conhecimento e troca. “Vendemos uma camiseta com o seguinte dizer: ‘se a coisa tá preta, a coisa tá boa’, e muita gente branca nos escrevem perguntando se elas podem usar”, e completa, “há esse estigma errôneo de que negro só faz moda e trabalho afro, e só para afrodescendentes, o que é um absurdo”.

Dando às coisas o nome e o peso que elas merecem, inclusive chamando de absurdo o que é absurdo, e de racismo o que é racismo, Monique conta que essa lição aprendeu involuntariamente no colégio, quando foi chamada dos mais diferentes nomes referenciando seus traços, cabelo e cor de pele, até o dia que levantou a voz e lembrou a todos a sua graça — “mulher negra precisa ter nome e sobrenome, se não o racismo a chama do que bem entender”.

“O empreendedor afrodescendente ganha, em média, mil reais por mês. Finalmente entendi que, na minha realidade, empreendedorismo é sobrevivência.”

Comemorando cada progresso que conquistamos como sociedade, a soteropolitana pondera ainda que o capitalismo e o capital não embranquece ninguém, mas aumenta o volume da voz que precisa falar, e sabe que, se empresas não mudarem suas práticas e suas crenças a fim de serem mais inclusivas, elas sofrerão no bolso as consequências, uma vez que os clientes estão prestando mais atenção a essas questões.

No outro lado da moeda, Monique fala em alto e bom som que unidade não é diversidade, e que ter apenas um negro, uma mulher, um indígena, um homossexual ou um representante de uma minoria não é suficiente — sobretudo se for para fazer bonito na frente das câmeras, apenas. “Eu não quero ver a mulher negra apenas vestindo uma determinada marca, eu quero é saber onde tem mulher negra envolvida no pensar da campanha, no dia a dia da empresa”, questiona.
E aí, você sabe a resposta?

Beijo,

Rony Meisler

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