Um TETO para chamar de meu: Sacha Senger fala sobre moradia e pobreza

Fala galera,
“As revoluções são impossíveis até que se tornem inevitáveis”. A frase de Leon Trotsky é parte da casa e das crenças de Sacha Senger, a Diretora de Sede do TETO, uma organização internacional fundada no Chile, em 1997, cujo propósito é  atuar pela defesa dos direitos das pessoas que vivem nas favelas.

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Fotos: Gabriel Cabral / Reserva

Formada em Arquitetura e Urbanismo, a curitibana de 29 anos dedicou sua carreira à segunda “parte” do curso, empregando toda sua energia, seu tempo e seu talento apenas no que diz respeito ao urbanismo. “Em alguns momentos cogitei mudar minha área de estudo, porque achava arquitetura elitista demais. Quem contrata um arquiteto hoje em dia? E qual a função social disso? Por sorte, na reta final da faculdade eu tive a oportunidade de trabalhar com urbanismo, em projetos que eu verdadeiramente acreditava”, relata.

“Explicamos aos voluntários que aquilo não é feito para que eles se sintam bem e se passem por protagonistas. Muito pelo contrário: eles são ferramentas de uma transformação social real, e isso vai muito além do umbigo de cada um.”

Entre os trabalhos que participou ativamente, Sacha menciona um Plano Diretor em Angola como um dos mais marcantes. “Tive de visitar um pequeno vilarejo perto de Luanda por duas vezes, em 2014. Descobri que a pobreza tem várias facetas: aqui a discrepância é cruel, mas ali é generalizada. A classe média naquela região é virtualmente inexistente”, diz.

As inquietações talvez ecoassem um outro Brasil que Sacha estava conhecendo cada vez melhor: como voluntária do TETO desde 2012, a jovem convivia com um mundo e com vidas sem edição — mas, graças ao seu trabalho, e ao de centenas de outros voluntários, essas histórias passam a ter, se não um final feliz, pelo menos perspectivas de se chegar ali.

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O bom trabalho como voluntária e a afinidade com os valores da organização renderam à curitibana uma oportunidade de trabalho remunerado dentro da instituição. Primeiro assumiu o setor de Diagnóstico, responsável pela coleta de dados e análise, onde atuou por dois anos, até ocupar o cargo que exerce hoje, de Diretora de Sede, em São Paulo.

“O que me preocupa são as novas favelas que estão surgindo, porque elas vão começar a dolorosa jornada que a outra está em vias de superar.”

Ao todo, Sacha contabiliza mais de 100 comunidades paulistas beneficiadas pelo TETO, e explica que o trabalho vai muito além da construção de moradias. “Um dos nossos papéis é fomentar lideranças nas áreas em que atendemos, porque a gente faz tudo na base da parceria entre voluntários e moradores. Depois, também ‘educamos’, por assim dizer, os voluntários, que são jovens universitários, em sua maioria. Explicamos a eles que aquilo não é feito para que eles se sintam bem e se passem por protagonistas. Muito pelo contrário: eles são ferramentas de uma transformação social real, e isso vai muito além do umbigo de cada um”, pontua.

Desde que passou a fazer parte do TETO, Sacha conta que a organização trabalha com a construção de dois modelos de casa, um de 15 e outro de 18 metros quadrados. “São casas provisórias, para situações emergenciais, como diz o próprio nome. A ideia é que sirvam de abrigo por cerca de 5 anos, um período de tempo razoável para que a realidade naquela região seja outra — e melhor”.

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Quanto à primeira experiência numa construção liderada pela ONG, Sacha conta que sua reação inicial foi de choque. “As casas não têm banheiro ou qualquer tipo de encanamento. Não achava possível que era aquilo, tão pouco, que algumas pessoas precisavam para ter uma vida mais digna. Então eu entendi que só de não entrar bicho ou entrar água na sua casa faria uma diferença enorme na qualidade de vida de qualquer ser humano”, pondera.

Os anos liderando uma das instituições mais ativas do país quando o assunto é moradia ensinaram à Sacha que a raiz do problema está na questão da terra: “sem terra não há segurança. Ninguém vai investir num lote que não lhe pertence. Porque você dedicaria parte considerável de seu salário, que já é baixo, desenvolvendo um pedaço de terra que a qualquer momento lhe pode ser subtraído? Não faz sentido. Enfrentar isso é difícil, eu sei, mas é também necessário”.

Se apoiando na força e na luta da nova geração que está surgindo, mais questionadora e disposta ao embate, Sacha já consegue sentir algumas melhorias. Em uma comunidade em São Paulo, por exemplo, o trabalho do TETO quase não é necessário: a liderança ali tomou as rédeas das coisas, e a realidade local é outra. Hoje os moradores se organizam de forma a tornar a comunidade mais justa e até sustentável, dadas as proporções.

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“O sistema que temos hoje se reinventa para continuar igual. Eu sei que as favelas vão melhorar, porque os moradores ali vão dar um jeito para, pouco a pouco, mudarem de vida — o que me preocupa são as novas favelas que estão surgindo, porque elas vão começar a dolorosa jornada que a outra está em vias de superar”, arremata.

Buscando apoio e aproximação junto à prefeitura e órgãos estatais, Sacha e o TETO trabalham duro para que um dia, quiçá não muito distante, seus esforços sejam simplesmente desnecessários.

Beijo,

Rony Meisler

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