Sergio Pugliese  Jornalista, amigo da Reserva, co-autor de “Rebeldes têm asas”

Será que vai sobrar alguém no Brasil? Jantar, reunião de trabalho, táxi, elevador, sala de espera, resenha da pelada, encontro na casa de amigos, fila do caixa eletrônico. Em todos os lugares ouço alguém dizer que tem avós portugueses, que tem dupla cidadania, que tem passaporte turbinado, que tem parentes na Europa e já está com data marcada para desembarcar em Lisboa, o novo refúgio da paz, o oásis do mundo. E é sempre o mesmo discurso, qualidade de vida, menos violência e ruas limpas, onde “não se vê um papelzinho jogado no chão”. Será que vai ter emprego para todo mundo? Não importa, o que muita gente jamais toparia fazer por aqui, como ser garçom ou taxista, ofícios nobres como qualquer outro, em Portugal a rapaziada estufa o peito para falar: “meu filho é garçom numa adega!”.

E as famílias com melhores condições financeiras não cogitam a possibilidade de os filhos continuarem estudando no Brasil e buscam as universidades americanas. Também quero o melhor para a minha família e meus amigos, mas seria essa a melhor solução? Almocei com o empresário Roberto Medina na semana passada e ele soltou o verbo em cima das autoridades que largaram de mão a cidade. A violência só aumenta. Mas sempre foi assim. A maior diferença é que hoje as redes sociais inundam nossos celulares com cenas de assaltos, agressões e assassinatos, que talvez nem fossem noticiados, passassem em branco há alguns anos. Mas agora é tempo real na veia!!! Em 1990, Medina foi sequestrado e passou 16 dias no cativeiro. Anos depois, em 2004, ele também foi para Portugal, mas levando a marca do maior festival de música do mundo, que na terrinha virou Rock in Rio Lisboa. Para Medina, os grandes empresários devem unir-se e investir, apostar em suas cidades, principalmente no turismo. Um calendário de eventos consistente atrai turistas, que atrai segurança, que se transforma em verba suficiente para equipar escolas e hospitais. Parece simples e é.

Quem também segue a linha do “sou brasileiro e não desisto nunca” é o empresário Daniel Barcinski, outro excepcional organizador de eventos. No ano passado, resolveu abrir um coworking, no Leme. O boca a boca foi tão forte que antes mesmo da inauguração oficial as 70 estações de trabalho estavam lotadas. É chegada a hora de colocar o boi na sombra, pensou, aposentar-se do estresse da produção dos grandes eventos, como Tim Pop Festival, Tenda Eletrônica do Rock in Rio e Hip Hop Manifesta, quando trouxe a estrela mundial Snoop Dog. Que nada. Com a volta da violência nos morros da Babilônia e Chapéu Mangueira viu, acuado nas cordas, seus clientes evaporarem de um dia para o outro. Não teve jeito, jogou a toalha, quebrou.

Nos encontramos há alguns dias e ao saber da história perguntei se também estava de malas prontas para Portugal. “Se fosse sair seria para Nova York”, ironizou. Daniel Barcinski está quebrado, não morto, e promete um evento maravilhoso no mesmo bairro que sofreu um dos maiores baques de sua vida. O objetivo é recuperar a autoestima de moradores e comerciantes. “Não desisti nem do Leme, que dirá do Rio e do Brasil”.

Tem uma rapaziada casca grossa que parte para dentro e adora desafiar o improvável. “Os políticos que nos sigam, não temos que depender deles”, bradou Medina. Mas essa frase também poderia ser de Rony Meisler, da Reserva, que assim como o criador do Rock in Rio e Daniel Barcinski não tem medo de cara feia e ainda acredita nessa cidade. “Os impostos que pagamos também são uma violência”, costuma dizer Rony. Eu também acredito nesse país, assim como minhas sócias Beth Garcia e Germana Costa Moura, da Approach, uma agência 100% nacional e com disposição de touro bravo para continuar inovando e seguindo em frente. E acredito mais ainda quando me deparo com cenas do cotidiano, como a de domingo, às 7h30, na porta do supermercado Zona Sul, de São Conrado, quando um cliente irritado com a abordagem de um flanelinha disparou: “não são nem oito horas e você já aqui enchendo o saco??!!”. E a resposta: “Sempre acordei cedo para trabalhar”. Não sei o desfecho da história, mas a resposta sensibilizou o motorista, que desceu do carro e após alguns minutos de conversa deu seu cartão de visitas ao guardador. A maior parte da população não terá condições de ir para Portugal e terá que se virar por aqui mesmo. E ela está a fim de se virar!

Resumo da história: eu não faço parte da lista dos que navegarão para Portugal, terrinha querida do genial Fernando Pessoa, que um dia nos brindou com o poema “navegar é preciso viver não é preciso”. Continuarei por aqui ralando e remando. Isso, remando, porque no Rio a situação está preta e o verbo navegar soa muito brando. Aqui precisamos remar e remar muito, mas valerá a pena.


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