O dono da festa: Rodrigo Santanna, do MECA, seleciona 8 lições para novos empreendedores

Sua peregrinação em busca de uma terra prometida particular o levou aos quatro cantos do mundo, mas foi em solo brasileiro que Rodrigo Santanna fincou raízes e viu florescer seu sonho de longa data: o MECA, uma plataforma cultural multimídia que pode ser comparada a cases internacionais.

Formado em arquitetura, o gaúcho de 38 anos desdobrou seus negócios em várias frentes – festivais de música, jornal, site, objetos de decoração e lifestyle e um café com aroma de coworking em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo.

Fotos: Gabriel Cabral / Reserva

Com um sólido background em comunicação e publicidade, não era de se estranhar que Rodrigo conquistasse rápido sucesso com o MECA, mas o que se vê anualmente nos jardins de Inhotim, em Brumadinho (MG), vai além de qualquer expectativa. No maior museu a céu aberto da América Latina, o empresário reúne grandes expoentes da música brasileira e internacional ao mesmo tempo em que elabora um line-up afiado de palestrantes e organiza workshops que vão de técnicas de cerâmica a mindfulness.

Ao longo de três dias de evento, o MECAInhotim de Rodrigo Santanna atraiu cerca de 9 mil pessoas  e concentrou uma seleção invejável de marcas parceiras.  E sabe por quê? Por tudo isso que Rodrigo nos conta a seguir.

1- Desconforto, eis-me aqui de regresso

“Não posso ser irresponsável e hipócrita de negar as vantagens da zona de conforto: ela nos dá estrutura e a calma necessária para trabalhar com constância, mas acho perigoso fazer morada ali. O conforto, aliás, me é entediante e limitante. A desconstrução pode ser sempre positiva, se você souber lidar com ela. Busco o desconforto para que eu exercite a minha criatividade, a minha ambição e os meus limites, e tudo isso é muito saudável para mim e para o MECA.”

“É muito tentador aceitar quantias generosas de patrocinadores, mas nem todas as marcas falam a mesma língua que a nossa e, nestes casos, é preciso fazer prevalecer a visão a longo prazo do negócio.”

2- Mas aquele 1%…

“Há festivais incríveis que acontecem por aqui, como o Rock in Rio e o Lollapalooza, que misturam vários gêneros. Há ainda eventos de funk, sertanejo e indie que atraem bastante atenção do público e de marcas, mas a grande verdade é que a gente sabe muito bem o que e como queremos ser. Esses festivais ajudam a nossa curadoria, nos ajudam a calibrar a mira de onde queremos chegar. Claro que isso tem um preço a pagar: do ponto de vista de negócio, seria mais fácil entrar em um mercado já consolidado, com maior audiência e maior investimento de patrocínio, mas nunca quisemos fazer mais do mesmo. Dito isso, tenho claro que somos um organismo vivo e sempre aberto a mudanças. Se um determinado mercado se modernizar e estiver alinhado com os nossos propósitos, temos total liberdade de mudar. Aliás, já fizemos isso: a gente sempre focou no movimento indie internacional, mas quando surgiu a oportunidade de trazer Caetano Veloso e Jorge Ben Jor para o Inhotim, todos nomes nacionais, aproveitamos, porque entendemos a relevância dos artistas e afinidade deles com o nosso público.”

3- Juventude transviada

“Trabalhar com e para o público jovem é um desafio, porque ninguém está ficando mais novo e o relógio não para de correr. Mas eu nunca quis criar um cenário para mim. Claro que o MECA acompanha o meu amadurecimento e o amadurecimento das pessoas que trabalham comigo, mas a gente aposta forte na metodologia de colaboração. Gostamos de experimentar coisas novas e estamos conectados com todas as cenas — coisas relativas ao universo jovem por natureza. Então o segredo da nossa ‘juventude eterna’, por assim dizer, é saber ouvir e estar alinhado a esses interesses. Nossa curadoria colaborativa, para todos os projetos, nos dão longevidade.”

4- Não é bem o que parece

“A liderança me parece por vezes superestimada, porque é vendida como o melhor dos mundos, mas a verdade é bem diferente disso. Acho que um líder tem que manter o ego na coleira, porque não se trata da construção da sua imagem pessoal. Tem gente, por exemplo, que acha que eu escolho as bandas que eu gosto e penso apenas em atrações que agradem a mim, só que isso limitaria demais o MECA. Como quero que a plataforma tenha vida longa e seja independente da minha pessoa, vejo um líder mais como um diplomata, que se relaciona e conecta todo o ecossistema. E para desempenhar bem essa função, é preciso abrir mão das vaidades.”

“O segredo da nossa ‘juventude eterna’, por assim dizer, é saber ouvir e estar alinhado a esses interesses. Nossa curadoria colaborativa, para todos os projetos, nos dão longevidade.”

5- As vaidades da fama

“A gente trabalha com influência e construção de marcas, e isso traz relações de poder e egos inflados — o que é sempre um tanto delicado. Ao meu ver, tudo começa a ficar mais simples quando somos verdadeiros e temos real consciência do nosso papel em cada momento do processo. Tem horas que precisamos deixar que os outros brilhem mais, e há momentos em que precisamos ser mais firmes, para que as coisas aconteçam de acordo com a proposta do projeto. Penso nessas situações como uma orquestra: de nada adianta um maestro incrível se os músicos não são talentosos. Da mesma forma, músicos afinados precisam da tutela de um bom maestro para que todos estejam em harmonia. É uma diplomacia constante.”

6- Quanto vale a sua ética?

“É tentador aceitar quantias generosas de patrocinadores, mas nem todas as marcas falam a mesma língua que a nossa e, nestes casos, é preciso fazer prevalecer a visão a longo prazo do negócio. No caso do MECA, posso dizer que batalhamos muito para termos conosco as marcas que queríamos. As negociações às vezes pendiam mais para um lado, às vezes para outro — hoje nos orgulhamos do equilíbrio. Mas isso veio também com uma ‘reeducação’ do mercado, porque é comum ver agências e marcas balizando o sucesso por números e métricas rígidas, mas o MECA não é como outros festivais e seu retorno é qualificativo. Nunca houve uma briga em nossos eventos, nunca uma pessoa passou mal e foi para no hospital, por exemplo. O público tem uma energia incrível. São coisas muito relevantes e que deveriam entrar na conta. Acho que as marcas estão começando a entender isso.”

7- Hi-lo

“Claro que já tive minhas crises, e sei que vou ter momentos de baixa também. Ano passado foi muito desafiador, porque o MECAInhotim foi desgastante; exigiu tudo de mim. Ao mesmo tempo que olhava para trás com orgulho, me sentia um pouco sem energia também. Depois de muito refletir, entendi que esses períodos de silenciamento e de reflexão são inescapáveis, então o mais proveitoso a fazer é abraçar esse silêncio e se entregar a uma autoanálise profunda, buscando sair mais maduro e fortalecido de tudo isso. Entendo, então, que as baixas vêm e elas nos tiram da zona de conforto — de novo ela!”

8- Robin Hood: marcado para morrer

“Por algum tempo eu fui meio Robin Hood com o MECA. Como se trata de um projeto pessoal, eu tinha um lado bem romântico do business que custava caro. Então eu mantinha outros negócios para me capitalizar e investir no MECA, mas percebi que criei uma grande problemática, porque eu tinha que me dedicar aos outros negócios a fim de buscar dinheiro. Assim, o MECA escapava da minha lista de prioridades e, quando isso acontecia, mais distante eu ficava de levá-lo para onde queria. Então no ano passado eu decidi fazer o salto: saí de vários negócios para colocar aquela pressão natural e transformadora no MECA, a fim de fazê-lo rentável e sustentável. Dessa minha experiência, digo a todos que construir algo é sempre um risco e sempre uma dor, mas tudo isso vale a pena se você estiver ancorado em suas verdades.”

– INSPIRE-SE NO ESTILO DO RODRIGO –

 

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