Autora do livro “Empreendedorismo Criativo”, Mariana Castro destrincha as 15 lições que aprendeu

Comunicadora por essência e formação, Mariana Castro aprendeu a ler as entrelinhas da criatividade e editou o próprio sucesso. Depois de publicar, em 2014, o livro “Empreendedorismo Criativo”, tornou-se sócia da f451, uma produtora de conteúdo responsável, entre outras coisas, pelo Gizmodo Brasil — veículo especializado em tecnologia.

Dividindo seu tempo entre pesquisas, palestras e aulas no Istituto Europeo di Design (IED), a jornalista fez de si uma das maiores especialistas em novas economias do país, dominando tudo o que diz respeito à economia do propósito, economia circular, gig economy e todas as outras.

As grandes redações de jornais e revistas não fazem mais parte do cotidiano de Mariana, mas sua veia jornalística crítica e investigativa continua forte, operante e pulsante — como bem notamos a seguir.

Fotos: Gabriel Cabral / Resverva

1- É fácil falar…

“Entrevistei dezenas de empreendedores e pesquisei a fundo o mundo das startups, mas sei que existe um abismo entre a teoria e a prática. Ainda hoje levo a sério meus estudos e me esforço para aplicar no dia a dia da minha empresa o que aprendo com essas experiências, mas sei que não é uma tarefa simples.”

2- A beleza de ser um eterno aprendiz

“Como jornalista, defendo com unhas e dentes a importância da análise de dados. Quanto mais informações você tem sobre um determinado assunto ou um determinado cenário, melhor. Claro que há um lado intuitivo latente em empreendedores de sucesso, mas acho pouco provável que um negócio vingue sem que os envolvidos diretos tenham as informações necessárias para tal.”

3- A máscara do glamour

“Tenho medo da glamourização do empreendedorismo, porque é irresponsável. Essa coisa de ser livre, leve e solto, de ter muito dinheiro, não é verdade na maioria dos casos. Isso não quer dizer que empreender seja ruim, muito pelo contrário, mas precisamos abordar o assunto sem romantizá-lo: empreender é um desafio e, portanto, tem suas asperezas.”

4- Criatividade não é para os fracos

“O mapeamento do empreendedorismo do Brasil mostra que os novos negócios estão totalmente centralizados em poucas áreas – e geralmente nas mais concorridas, como alimentação e beleza. Há pouquíssima criatividade no empreendedorismo brasileiro, o que é ligeiramente triste, visto que a criatividade qualifica e valoriza o empreendedorismo. Começar um novo modelo de negócio no Brasil é difícil, mas fazê-lo criativamente é muito mais — mas vale a pena! A gente tem a ideia do brasileiro como muito criativo, mas somos inventivos para achar soluções inusitadas. O Dinho, que é um empreendedor carioca que inventou a Universidade da Correria, brinca que a startup do brasileiro começou quando alguém inventou de colocar um Bombril na ponta da antena para melhorar a imagem da TV.”

5- Empreender sem posse

“A gente associa empreendedorismo a ter o próprio negócio, mas eu sempre trato da postura empreendedora. E você pode ter isso dentro de uma grande empresa, como funcionário mesmo – é o que chamamos de intra-empreendedorismo. Existem duas formas de trabalhar esse intra-empreendedorismo: a primeira é levar o mindset de startup para dentro das corporações, o que é maravilhoso, se esse novo modelo não for completamente engolido pelos processos já existentes na empresa. Outra forma é estimular a postura empreendedora de funcionários-chave para dar escalas a essas práticas.”

6- Se eu quero, eu posso

“Não acredito nessa coisa divina de ter um dom. Conseguimos desenvolver habilidades dentro daquilo que nos propomos a fazer. Nas minhas aulas e palestras, gosto de citar Charles Watson, que pesquisa o processo criativo há muito tempo. De acordo com o estudioso, você não precisa nascer com um determinado talento, porque as pesquisas mostram que, se essa coisa de ‘dom’ existe de verdade, ela é desimportante para o sucesso. As conquistas estão muito mais ligadas à dedicação e paixão, já que quando gostamos de algo, estamos dispostos a passar por obstáculos para chegar onde queremos.”

7- Começo, meio e sem fim

“Um estudo dentro do Google verificou que os funcionários que trabalhavam nas áreas mais ‘prestigiadas’, geralmente ligadas à criatividade, tinham entregas de qualidade, acima da média. E ainda que os funcionários de setores mais burocráticos, como o RH, sejam profissionais de destaque no mercado, eles tinham um rendimento mediano dentro da gigante americana; eles não apresentavam soluções e não traziam novidades. Finalmente entenderam que a chave para essa questão era mostrar que o trabalho não era o fim, que não se pode ter uma postura passiva diante das tarefas — todo mundo pode e deve participar do processo como um todo, mudando-o constantemente para melhor servir à empresa e às expectativas de cada um.”

8- Tamanho é documento: e quanto menor, melhor

“O que eu vi nesse segmento de empreendedorismo criativo é que estruturas menores tendem a funcionar melhor, principalmente no começo do negócio. É claro que mais funcionários implica em mais processos, mas é preciso estar atento para levar a cultura da inovação a todos. A Apple, por exemplo, é gigante, mas mantém seu DNA de startup. Exceções à parte, acho que quem quer começar, é melhor fazê-lo pequeno, até para minimizar os riscos e melhor calcular as estratégias.”

“O brasileiro tem tanta vontade de empreender que é o quarto maior sonho nacional. Primeiro vem viajar pelo Brasil, depois ter a casa própria, seguido pela vontade de ter um carro e, enfim, ser dono do próprio negócio.”

9- Agora é que são elas

“Na última pesquisa GEM, que é global e conta com o apoio de renomadas instituições no país, mostra que, em 2016, houve crescimento no número de mulheres na parte de empreendedores iniciantes. Ou seja, no Brasil, mulheres mais novas (entre 18 e 30 e poucos anos) superaram um pouco o número de homens na mesma área. Acho tudo isso muito saudável, porque evidencia o amadurecimento do país.”

10- Terreno fértil

“O brasileiro adora consumir inovação e não é à toa que somos um dos principais mercados de apps, dispositivos para relacionamento e etc. Mas ao mesmo tempo que somos consumidores de inovações, não somos bons em produzir esse empreendedorismo por aqui. Em parte, isso se deve a falta de cultura para investir em negócios iniciantes: saber que pode perder e tem que arriscar. O México, por exemplo, é melhor nesse sentido. Também entendo que o atual cenário econômico não colabora — em tempos de crise, nos tornamos mais cautelosos. Mas o ponto central aqui está na nossa falta de hábito de investir, como pessoa física, em novos negócios, e isso tem impacto na cultura de inovação.”

11- Start me up!

“Muitas das empresas que pesquisei começaram com um investimento bem baixo, proveniente do que chamamos de ‘FFF’: Family, Friends and Fools (parentes, amigos e tolos, em tradução literal). Hoje podemos contar com o crowdfunding, mas a prática ainda é tímida quando comparada a dos americanos e de outros povos mais empreendedores. Acho que essas plataformas de financiamento coletivo viraram cruciais no cenário empreendedor, até porque é uma forma de você testar sua ideia, de medir o interesse do público, de entender o que precisa ser mudado e fazer as alterações necessárias antes de deslanchar o negócio. Crowdfunding faz todo sentido, inclusive para prototipagem.”

12- Educação em primeiro lugar

“A educação empreendedora deveria ser prioritária. Não acho que o empreendedorismo deva ser uma disciplina em si, restrita. Na escola, é importante promover atividades que estimulem a postura empreendedora do aluno, sem fechá-lo em uma caixinha. O brasileiro tem tanta vontade de empreender que é o quarto maior sonho nacional. Primeiro vem viajar pelo Brasil, depois ter a casa própria, seguido pela vontade de ter um carro e, enfim, ser dono do próprio negócio. Ou seja, temos um desejo enorme de empreender, mas não recebemos suporte ou apoio algum para fazê-lo.”

13- Fracasso: degrau para o sucesso

“Aqui no Brasil a gente tem um entendimento de fracasso que é muito nocivo. No Vale do Silício, é positivo ter fracasso no currículo, porque eles partem do princípio que agora você tem essa experiência para agregar na próxima empreitada comercial. Quem faliu no Brasil é visto como incompetente e isso é errôneo e cruel.”

14- Contradição, a gente vê por aqui

“Uma coisa curiosa: nessa mesma pesquisa GEM, o brasileiro se mostra muito confiante. Ele se vê com capacidade, conhecimento e estrutura para empreender, mesmo a gente tendo os piores índices de educação empreendedora, capacitação, suporte financeiro e políticas públicas. Essa confiança é nociva também, já que ela vem sem nenhum respaldo.”

15- Dinheiro na mão é vendaval

“Lucro é gerar valor. Todas as empresas que estão no livro, são empresas sustentáveis do ponto de vista financeiro, mas isso não é o fim. Ganhar dinheiro importa, mas o propósito maior é contribuir para o futuro criativo do universo. É importante fazer com que as pessoas se desenvolvam por meio do conhecimento e tenham propósitos ambiciosos, sempre conectados com questões para além do dinheiro. Acho que pertence ao passado a régua que mede o sucesso apoiado em números e cifras: hoje vale mais a hierarquia horizontal, com lideranças por projetos. Em algumas empresas modelos, os próprios sócios de unidade de negócio definem o seu salário, por exemplo. Isso porque, se você está interessado em ver o negócio dar certo, ninguém melhor que o dono para dizer quanto ele pode tirar para si. O ambiente competitivo dá lugar ao colaborativo, e o impacto social passa a ser fundamental. Muita gente diz que tudo isso soa como discurso de uma ONG, mas é apenas a realidade de empresas financeiramente saudáveis que entenderam as práticas desta nova era: lucro é valor, mas não é o fim.”

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