Camila Carvalho sabe quão doce é compartilhar

Fala galera,

Iniciativas como a do Tem Açúcar, idealizada pela Camila Carvalho, hoje com 27 anos, tem ajudado a deixar um pouquinho mais doce a nossa sociedade. Graduada em design para sustentabilidade na Educação Gaia, com chancela da ONU, a carioca conta que, quando modelo, morou em diversos países, e na maioria deles sentiu o gosto amargo de uma sociedade marcada pelo excesso de consumo e seus efeitos colaterais, como a poluição, a mão de obra desvalorizada e outros.

Fotos: Soraya Albuquerque / Reserva

“Era contraditório que eu trabalhasse como modelo e, de alguma forma, ajudasse a fomentar justamente o que entendia como problema: o consumo desenfreado”, confessa Camila, que deixou os holofotes da moda para brilhar na economia compartilhada em dezembro de 2014, quando a primeira versão beta do Tem Açúcar foi ao ar.

Nascido para ser uma plataforma para conectar vizinhos a fim de facilitar o empréstimo de coisas, o site reuniu, apenas no primeiro mês de atividade, cerca de 30 mil usuários que compartilharam de tudo um pouco: fantasia de Carnaval, furadeira, barraca de camping, cooler…

O crescimento seria, portanto, algo perfeitamente natural, assim como os ajustes ao longo do caminho. Logo usuários passaram a contar com a rede de apoio para tarefas como regar as plantas e cuidar de animais de estimação durante curtos períodos de férias.

“A sociedade glorifica a independência e a autossuficiência, e a gente acredita: ficamos todos lutando para nos bastar. Eu prefiro trilhar o caminho da interdependência, que é esse de compartilhamento, ajuda e solidariedade. Você não precisa ter a posse, só precisa ter acesso a certos bens.”

Esse novo movimento na plataforma estendeu suas atividades e transformou o Tem Açúcar em uma rede de colaboração que vai muito além de empréstimos e pequenos favores: agora é possível convidar um vizinho para fazer caminhadas, oferecer carona e por aí vai.

“O aplicativo resgata o senso de comunidade típico de cidades menores, onde é comum as pessoas se conhecerem e se ajudarem. Embora as atividades começarem online, elas eventualmente migram para o mundo offline nos encontros”, aponta Camila.

Selecionado pelo maior programa de aceleração da América Latina, o Startup Chile, o Tem Açúcar, em dois anos e meio de vida, acumula aproximadamente 150 mil usuários em mais de 12 mil vizinhanças espalhadas por 4 mil cidades brasileiras. “Tudo isso sem marketing”, afirma.

Todos esses números talvez sejam a forma mais eficaz de quantificar a solidariedade latente do nosso povo. “Cerca de 50% dos usuários encontram o que procuram, sendo que 25% das respostas ocorrem em 30 minutos e metade responde nas primeiras duas horas”, diz.

Embora tenha iniciado o projeto no Rio de Janeiro, Camila conta que a maior base de usuários está em São Paulo. “Acho que nesses cenários mais urbanos, os millenials estão engajados em resgatar valores considerados ‘antigos’, como esse do escambo”, arrisca.

 

 

Mais do que tonificar o compartilhamento de objetos em detrimento da posse, Camila tem feito verdadeiras revoluções involuntárias com o aplicativo. “Uma mulher inserida em um contexto econômico favorável um dia solicitou um liquidificador na região do Cosme Velho, aqui no Rio de Janeiro. Uma vizinha se prontificou a ajudá-la. Na hora de retirar o aparelho requerido, essa mulher se emocionou ao perceber que a pessoa que lhe oferecia o liquidificador pertencia a uma classe muito mais baixa. Isso mostra que está todo mundo aqui para se ajudar, estamos todos tentando viver em sociedade. O isolamento social não traz benefício algum”, afirma.

Criada na Tijuca, em um condomínio com uma vizinhança unida e ativa, Camila conta ainda que os laços de apoio com os moradores ao redor foi o que mais lhe causou saudade quando mudou para a zona sul da cidade, anos depois.

“A sociedade glorifica a independência e a autossuficiência, e a gente acredita: ficamos todos lutando para nos bastar. Eu prefiro trilhar o caminho da interdependência, que é esse de compartilhamento, ajuda e solidariedade. Você não precisa ter a posse, só precisa ter acesso a certos bens”, conclui.

Que seja doce essa jornada que seguimos juntos, Camila!

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