Pedro Markun e a transparência hacker

Fala galera,

São três ou quatro ferramentas que cabem em um estojo cujas dimensões se aproximam muito das de um cartão de crédito comum, e que facilmente se acomoda em uma carteira qualquer. Apesar do tamanho, não há tranca que resista ao poder desse kit, disponível na internet mais próxima de você — e no bolso de Pedro Markun, 31 anos, do Labhacker, que o tem por muitos motivos, inclusive para simbolizar sua luta por transparência.

Fotos: Thays Bittar / Reserva

“A informação só faz sentido se for compartilhada”, pontua Pedro, enquanto gira seu estojo “hacker” entre os dedos. Para ele, a tranca é a prova da nossa incapacidade de respeitar; é o reflexo de uma cultura que faz o bloqueio pela técnica, não pela ética. “Se o que me impede de entrar na sua casa sem a devida autorização é a fechadura, isso não faz sentido, até porque qualquer porta se abre ao uso da força ou das ferramentas corretas”, pondera.

“A política é uma grande indústria de intermediação entre a cidade e as pessoas, e talvez a tecnologia possa hackear o sistema.”

Longe da lógica e dos direitos da propriedade privada, Pedro defende que não deveria haver portas, trancas ou barreira entre informações públicas e o povo em geral, e faz dessa transparência uma das principais bandeiras do Labhacker, uma organização que “estimula o desenvolvimento de aplicações digitais que permitam a visualização mais intuitiva e simplificada das informações legislativas”.

Embora não exista uma data exata de lançamento da plataforma, Pedro gosta de lançar mão de uma anedota para traçar o começo de tudo. ”Depois da eleição do Kassab, eu estava num bar na região da Avenida Paulista, reclamando do resultado das urnas. Eu não participei da campanha, não me manifestei de forma alguma, mas estava ali, sentado, resmungando do novo prefeito da cidade. Curiosamente, como acontece às mesas dos bares, os assuntos vão surgindo de forma aleatória, e de repente estávamos falando de como o Napster, um dos primeiros serviços de streaming de música, obrigou uma indústria toda a se reinventar”. E completa: “então fiquei pensando se não haveria uma maneira de mudar a política da mesma forma. Ora, se mudanças tecnológicas podem transformar os intermediadores, como o Napster fez com as gravadoras e distribuidoras, porque seria diferente em outras esferas? A política é uma grande indústria de intermediação entre a cidade e as pessoas, e talvez a tecnologia possa hackear o sistema.”

“A informação só faz sentido se for compartilhada.”

Sem dar grande importância à ordem cronológica dos fatos, Pedro conta que ficou intrigado quando na era Lula foi levado ao ar o Blog do Planalto, mas que achava um absurdo a página não aceitar comentários, porque isso não constitui diálogo. Observou, porém, que o site usava WordPress e, portanto, dispunha de RSS, ferramenta que permite acessar informações de forma ordenadas. Além disso, o blog atuava na licença Creative Commons, que permite o uso e reprodução do conteúdo sem autorização prévia.

Rapidamente, o “hacker” colocou seu conhecimento de programação em jogo e criou uma página que automaticamente importava, na íntegra, todo o conteúdo do Blog do Planalto, mas que aceitava comentários.

Foi uma questão de tempo para que a novidade ganhasse não apenas audiência, mas atenção — inclusive da mídia. Depois de o telefone tocar dezenas de vezes para pedidos de entrevista, finalmente tocou para dar voz ao Planalto. “Eles disseram que essa questão dos comentários gerou uma discussão interna de seis meses e que, em 15 minutos, que foi o tempo que levou para criar a outra página, eu invalidei tudo aquilo”, comemora.

A partir daí, Pedro e outros membros do Labhacker passariam a “invalidar” certas discussões e a iniciar outras, de várias maneiras. Uma delas, talvez a mais recente, seja o Ônibus Hacker, que pretende levar conversa, tecnologia e política às regiões mais diversas do país. Trazendo diferentes oficinas a bordo, inclusive uma de crochê, Pedro conta que uma das mais potentes é a que ensina a escrever um projeto de lei.

“Se o que me impede de entrar na sua casa sem a devida autorização é a fechadura, isso não faz sentido, até porque qualquer porta se abre ao uso da força ou das ferramentas corretas”

Assim que o ônibus chega na cidade e reúne um número mínimo de interessados, os passageiros do ônibus convidam os presentes a pensar nos problemas que o município enfrenta para depois apontar as possíveis soluções. Esse é o ponto de partida para um projeto de lei, que depois é devidamente protocolado e encaminhado segundo a burocracia oficial.

“Essa oficina funciona muito bem com crianças de 11 até uns 15. Com adulto é muito chato, porque ninguém acredita que a mudança é possível. Teve uma oficina que a gente até parou no meio, já que os adultos presentes queriam falar sobre segurança pública, mas ninguém enxergava uma solução”. E finaliza: “se não pensarmos em uma saída para os problemas, essa oficina vira uma brincadeira, e não é esse o objetivo.”

O cenário se repete no Jogo da Política, quando as pessoas são convidadas a construir, do zero, uma constituição e, a partir disso, uma nova sociedade. “Fico impressionado com a dificuldade que a gente tem de imaginar que as coisas podem ser diferentes”, lamenta Pedro.

Apesar de reconhecer os desafios que temos pela frente, Pedro demonstra uma postura otimista em relação ao futuro, e sabe que a resposta para as grandes perguntas está em mudar o imaginário da política. “Assim como o hacker sofre por conta do peso da palavra, usada em tom pejorativo, a política e os políticos também o fazem”, pondera.

Para além das lamúrias, a atividade hacker e a política dividem ainda a natureza colaborativa — ambas só funcionam se acessível a todos. Mas o que fazer quando as portas estão fechadas? Bem, aí só nos resta hackear as barreiras ilegais que se põem entre a gente e a informação pública. Por sorte, temos Pedro Markun e a galera do Labhacker para abrir certas portas.

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