Valentine Giraud: diálogos possíveis para soluções urgentes

Fala galera,

No front das mudanças necessárias, a facilitadora de processos em grupo Valentine Giraud, de 35 anos, mostra que conversas significativas são as únicas armas possíveis (e bem-vindas) na luta por um mundo melhor.

Graduada em Relações Internacionais pela PUC de São Paulo, Valentine nos conta que o “chamado” para atuar na área de desenvolvimento humano não é nenhuma novidade ou moda passageira: desde pequena, a paulistana teve a oportunidade de viajar o mundo com os pais, que não limitaram as experiências ao turismo efêmero que censura a parte dura da vida. “Vi de perto as amargas condições das pessoas no sertão nordestino, das cholas no Peru e além. Carrego há muito tempo essa vontade de trabalhar com políticas públicas, de mexer no macrossistema para transformar de maneira positiva a vida de milhares de seres humanos”, explica.

Fotos: Thays Bittar/Reserva

O caminho da diplomacia tradicional, contudo, não lhe parecia o mais apropriado. Em vez disso, preferiu caminhar com as próprias pernas em uma jornada — sem volta! — de diálogos e construção em sociedade. No último ano da graduação, Valentine foi aceita como parte da equipe de educação e desenvolvimento sustentável do Banco Real.

Ali pode colocar em prática os valores que trazia do berço, de acreditar e lutar pelo bem da nossa terra e pelo bem dos povos que aqui coabitam. “Nessa fase ganhei muito ferramental e muito estofo para finalmente entender que parte das mudanças está nas mãos das grandes corporações, mas em toda grande empresa há um time de colaboradores que precisam ser lembrados e relembrados de suas responsabilidades por meio de palestras, workshops e afins”, afirma.

“Não é o lucro que temos que combater, apenas nos certificar que essa rentabilidade esteja sendo distribuída de maneira justa e responsável.”

No período de um ano que trabalhou no Banco Real, Valentine começava a lapidar sua técnica de trabalho em grupo. Se desligou da gigante financeira para estagiar na Índia, com 22 anos de idade. “O que estava muito claro para mim é que, se eu quisesse atuar nas grandes estruturas, precisava então entender como funcionam as microestruturas, então minha decisão de atuar em uma ONG focada em desenvolvimento rural no Rajastão fazia sentido”, relata. Na sequência, a facilitadora se envolveu com uma organização francesa que atuava na Índia com o desenvolvimento de microcrédito, uma experiência que mudou sua vida.

Valentine voltou ao Brasil com esse valioso “excesso de bagagem”, e aportou seu conhecimento na Ashoka, uma das instituições mais respeitadas quando o assunto é empreendedorismo social. Ali, a paulistana entrava em contato com gente que tomava certas causas como suas missões de vida — algo que, pouco depois, viveria em primeira pessoa.

 

O acúmulo de conhecimento das variadas áreas do desenvolvimento social, ambiental e humano colocou a facilitadora na mira de empresas que buscam mudança. “O que eu faço é colocar as pessoas para conversarem e, juntas, criarem soluções inovadoras. Me certifico de que todo mundo seja convidado a falar e seja ouvido, porque as respostas que vão além do óbvio têm múltiplas vozes”, arremata.

Mesclando design thinking e liderança criativa nas atividades que promove, Valentine nos relembra da importância de sair da zona de conforto mental. “A gente precisa encontrar a brecha em determinadas questões para descobrir caminhos diferentes, mas, para isso, precisamos olhar um mesmo ponto de vários ângulos, não podemos fazê-lo apenas de nossas cadeiras: vamos para a rua, vamos dialogar com pessoas, nos colocar no lugar delas e mudar”, completa.

Tudo isso não coloca em xeque a questão do lucro, porque Valentine sabe que a saúde financeira de uma instituição é fundamental. “Não é o lucro que temos que combater, apenas nos certificar que essa rentabilidade esteja sendo distribuída de maneira justa e responsável”, pondera.

“Tudo sempre acontece no seu tempo, mas o avanço é constante. O movimento da pedra no lago é a melhor ilustração disso, e hoje sentimos as ondas das mudanças. Historicamente, tudo conspirou para que este fosse o momento da virada.”

Essa habilidade de enxergar o novo e enxergar o bem sem demonizar o lucro tem oxigenado grandes players do mercado, que buscam especialistas como Valentine para melhorar seus processos e seus resultados, dentro e fora do escritório.

“Tenho observado que mais empresas estão adotando o modelo de laboratório de mudança, onde elas se posicionam como um ‘ponto de encontro’. Funciona assim: as corporações elegem sua agenda principal de trabalho e convida governo, ONGs e outros para debaterem juntos e assim encontrar novas soluções para velhos problemas. As empresas são, por assim dizer, ‘chamadoras’ e estão usando parte de seu lucro para exercer a relevância que são capazes — e isso tem um impacto enorme”, afirma.

Longe da ingenuidade de achar que toda corporação busca se associar a temas sensíveis porque realmente se importam, Valentine ressalta ainda que há razões para ser otimista, porque, de fato, a maioria das empresas estão valorizando as mudanças de “dentro para fora”, e que a comunicação dinâmica proporcionada pelos avanços tecnológicos deixam as organizações com um grande “teto de vidro”, a ponto de elas se sentirem pressionadas no âmbito social, econômico e ambiental.

Ainda que essas estratégias de diálogo com propósito sejam relativamente novas, Valentine acredita que já podemos começar a sentir timidamente seus efeitos pra lá de positivos, mas que isso deve se intensificar num futuro não muito distante. “O efeito a curto prazo é o fortalecimento do campo e a interação entre as pessoas. Depois, a médio prazo, as ideias que surgiram e ganharam estofo começam a influenciar tomadas de decisões, públicas e privadas”, explica.

Quando questionada se este é o momento mais oportuno para ativar essa cadeia de mudanças, a facilitadora é categórica: “tudo sempre acontece no seu tempo, mas o avanço é constante. O movimento da pedra no lago é a melhor ilustração disso, e hoje sentimos as ondas das mudanças. Historicamente, tudo conspirou para que este fosse o momento da virada”.

Da primeira fila desse combate tão esperado e esperançoso, Valentine nos lembra que toda vitória, por menor que seja, merece ser comemorada, mas que nada deve nos distrair das nossas próprias responsabilidades — porque são elas, afinal, o princípio e o propósito de tudo.

Beijos,

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