André Cervi, fundador do Atados e do Abraço Cultural: conexões que transformam

Fala galera,

A trajetória profissional de André De Geus Cervi parecia estar traçada quando ainda estava na universidade. Enquanto cursava administração na Universidade de São Paulo, ele trabalhava em uma consultoria internacional e tinha nas mãos uma proposta de emprego com um salário invejável. Mas faltava alguma coisa. Aos 23 anos, decidiu largar o mundo corporativo para buscar um trabalho com mais propósito. Pediu demissão e se juntou a quatro colegas da faculdade para em 2012 fundar o Atados, uma rede que conecta associações que precisam de voluntários às pessoas que querem participar. A pequena organização que contava com a ajuda dos amigos para mobilizar mais pessoas em torno da causa se estruturou e tornou-se uma incubadora de projetos sociais. Hoje, são mais de 20 funcionários, sem contar as centenas de voluntários envolvidos nos projetos do Atados e das instituições parceiras.

Fotos: Thays Bittar | Reserva

A plataforma on-line continua conectando os voluntários às organizações, mas a experiência mostrou que era preciso dar um passo atrás e tentar mudar a cultura de engajamento social. “Queremos trazer um novo olhar para o trabalho voluntário e tirar o estigma de que é algo da igreja ou para idosos”, diz André. “É uma troca, uma oportunidade de aprendizado”. Uma das ações criadas pelo grupo com esse objetivo foi a Copa do Mundo dos Refugiados, que aproveitou a realização do torneio no Brasil para chamar a atenção para os imigrantes que buscam refúgio no país. “No evento, as pessoas interagiam com os refugiados e falavam: ‘nossa, eles têm uma cultura incrível e nem sabia que nesse país se falava francês’”, conta. “É comum olhar o que eles precisam, e não o que podem oferecer”.

“O voluntariado ainda é visto como aquela coisa de ajudar a pintar parede. É claro que essa demanda existe, mas é preciso olhar para isso como um movimento de engajamento”

Dessa experiência saiu a ideia do Abraço Cultural, um projeto que organiza aulas de idiomas ministradas pelos refugiados. Nos primeiros cursos, lançados em 2015, o número de inscritos foi dez vezes o esperado. Hoje, são mais de trinta professores de diferentes nacionalidades dando aulas de francês, inglês, espanhol e árabe em São Paulo e no Rio de Janeiro. Na capital fluminense, a segunda sede do Atados e do Abraço Cultural, inaugurada há dois anos, é liderada por Daniel Assunção, cofundador da associação. Além dos cursos regulares, também são organizadas oficinas culturais. Aulas de culinária, dança, caligrafia árabe e uma oficina de turbantes foram algumas das ações criadas para proporcionar uma troca que vai além do idioma. A ideia é que os professores possam ter uma fonte de renda enquanto se estabelecem no país e buscam um emprego em suas áreas.

No Atados, a rede é dividida em células, que cuidam dos diferentes projetos tocados simultaneamente. O Mentoria Amiga mobiliza consultores para ajudar mulheres de baixa renda a estruturar seus negócios na área da alimentação. A parceria com o Instituto Consulado da Mulher, que já oferece uma capacitação de dois anos à essas empreendedoras, permite que elas continuem sendo orientadas ao fim do curso. Outra célula está trabalhando para estimular o voluntariado em colégios públicos. Eles organizaram um grupo de voluntários para atender às demandas da Escola Campos Salles, em Heliópolis, zona sul de São Paulo. Desenvolvida junto com o corpo docente, a mobilização vai desde o apoio na área da informática à escolha de um articulador de recursos para fazer parcerias locais. Os novos projetos muitas vezes saem de dentro do próprio Atados. Como a iniciativa de uma professora do Abraço Cultural para reconstruir uma escola no Haiti, viabilizada pela rede através do financiamento coletivo.

Se empreender já é difícil, fazê-lo no setor social é ainda mais. Para André, ainda há muitos estigmas a serem quebrados. “O voluntariado muitas vezes é visto como aquela coisa de ajudar a pintar parede. É claro que essa demanda existe, mas é preciso olhar para isso como um movimento de engajamento”, diz. “Os projetos colaborativos têm uma potencialidade muito maior”. O Atados aposta no trabalho em rede para impactar cada vez mais e ajudar as ONGs a se tornarem independentes e sustentáveis. Estimular as pessoas a desenvolver boas ideias sociais e criar dentro deste setor é um dos desafios para atingir esse objetivo. “Tem gente que acha que o setor social não é profissional e quem trabalha nele não pode receber”, diz. “A única diferença é que em uma organização todo o recurso que sobra é destinado a ela própria”. Se há alguma dúvida do potencial transformador das conexões, o Atados é a prova disso.

beijos,

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