Feito a muitas mãos: Celina Hissa usa o design para fortalecer culturas locais

Fala galera,

As bolsas da Catarina Mina, marca de acessórios da cearense Celina Hissa, não escondem segredos. Pelo contrário. Há quase três anos, os custos do processo de produção das peças são abertos ao público. O valor da matéria-prima, as despesas com transporte e embalagem e a parcela recebida pelas artesãs que confeccionam as bolsas estão listadas em todos os produtos vendidos na loja online da marca. “No Nordeste você vê muitas pessoas que fazem trabalhos lindos desistindo do artesanato porque aquilo não é valorizado”, conta Celina. “Eu fiquei pensando como era possível fortalecer o modo produtivo artesanal e viabilizar essa cadeia”. Foi necessária uma boa dose de coragem para colocar em prática a ideia de revelar ao consumidor como cada acessório é produzido. Batizado de Uma Conversa Sincera, o projeto se transformou na identidade da marca, que produz bolsas em parceria com grupos de artesãs que vivem em cidades próximas à Fortaleza desde 2005. A ideia deu tão certo que às sete profissionais que trabalhavam nas peças se somaram outras trinta.

Fotos: Thays Bittar | Reserva

Da confecção de uma bolsa à criação de um novo modelo, todos os processos passam por muitas mãos. O primeiro esboço de Celina é levado às artesãs, que ajudam a pensar nos materiais e tipologias empregadas em cada peça. Crochê, palha e macramê são as técnicas mais usadas nas criações, que demoram até cinco meses para serem elaboradas. O próprio nome da marca, homenagem à escrava negra do Maranhão que enriqueceu e conseguiu comprar sua alforria, já denota o caráter coletivo da produção. “Quem é Catarina? Pode ser qualquer um e também é todo mundo ali. Catarina Mina é essa pessoa que a gente vai construindo junto”, diz Celina.

“O trabalho feito à mão está sendo cada vez mais valorizado, mas ainda precisa de muito trabalho, principalmente em parceria com o consumidor”

Ao trabalho com sua própria confecção se somaram as oficinas Catarina Mina, que levam essa tecnologia social a artesãs pelo Nordeste. Quando foi convidada para dar uma consultoria em desenvolvimento de produtos a um grupo de mulheres em Sobral, no Ceará, Celina percebeu que não adiantava pensar em design sem viabilizar a relação das artesãs com os consumidores. “São regiões muito carentes, então elas não vão se sustentar vendendo seus trabalhos para os vizinhos”, explica. Dessa primeira experiência, em 2015, nasceu a FIA Oficina de Artesãs. Através do financiamento coletivo, um grupo de 40 mulheres começou a comercializar suas peças, que hoje também estão à venda na loja virtual da Catarina Mina. A linha para a casa, que tem jogos americanos, cestos e souplats, também ganhou espaço na Oppa.

Fortalecer a cultura do artesanato se transformou na missão de Celina, seja com sua marca ou com as oficinas – ela não descansou nem durante a gravidez, quando levou na barriga o filho com nove meses para dar um curso intensivo de costura de bolsas em Maracanaú, na região metropolitana de Fortaleza. Ela acredita que é possível fazer modelos de negócio sustentáveis, que não explorem as artesãs e reconheçam o valor de seus trabalhos. “Não é bacana você migrar o modo de produção para a Índia, depois para a China ou onde for mais barato”, afirma. “O trabalho feito à mão está sendo cada vez mais valorizado, mas ainda precisa de muito trabalho, principalmente em parceria com o consumidor”.

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