José Bueno, do Rios e Ruas: a voz das águas de São Paulo

Fala galera,

Até a década de 1960, no lugar das oito pistas da 23 de maio, uma das avenidas mais movimentadas de São Paulo, corria o rio Itororó. Hoje aterrado, ele segue até o Anhangabaú, onde encontra o rio Saracura, que se transformou na avenida Nove de Julho. Só na época das chuvas, quando o volume de água por vezes chega à superfície submergindo os carros, o rio lembra que ainda está lá. “São Paulo foi construída sobre 300 rios e ninguém sabe. Ou melhor, a gente aprendeu a não saber”, diz o arquiteto e urbanista José Bueno. “Nos ensinaram que os rios da cidade são esgotos e morreram, mas enterramos eles vivos”. Para contar às pessoas sobre o mundo de águas que habita o subterrâneo de São Paulo, ele criou ao lado do geógrafo Luiz de Campos Jr o projeto Rios e Ruas.

Através de exposições, debates, oficinas, passeios e formações de educadores, eles querem revelar esse universo escondido e propor uma cidade que conviva com suas águas. No Circuito Rios e Ruas, os atletas são convidados a correr pelo caminho dos rios. Em novembro, um percurso de 8 quilômetros passa pela nascente do rio Ipiranga e, em dezembro, a corrida é pelas margens do Tietê. “Minha vontade é que a gente volte a desfrutar dos rios para tornar a cidade mais humana, em que as pessoas possam ocupar as ruas e as crianças voltem a brincar num fonte de água”, explica José.

“Recuperar nossos rios é possível, desejável e inevitável, mas depende do entendimento e do desejo de muita gente”

Desde 2010, o projeto já mapeou centenas de nascentes por São Paulo e organiza expedições para mostrar que as águas correm vivas embaixo das ruas da cidade. O rio Iquiririm, batizado assim porque em tupi significa rio silencioso, teve uma das nascentes encontrada pela dupla na Vila Indiana, região do Butantã. O local era um matagal usado como depósito de lixo. Com enxadas e pás nas mãos, eles chamaram os vizinhos para limpar a área e hoje o rio corre livre por alguns metros, com um pequeno lago e uma horta comunitária.

Nas experiências promovidas pelo Rios e Ruas, José costuma carregar um potinho com a água transparente do Iquiririm. “Eu brinco que estou levando o meu cliente”, diz. “Isso é água limpa que nasce na cidade de São Paulo”. Ele coleciona as águas de rios do mundo todo. Recentemente, foi à Europa conhecer os projetos de recuperação de rios que foram revitalizados depois de décadas enterrados e trouxe consigo amostras de rios como o Tejo, que nasce na Espanha e segue até Portugal, e do Isar, que corta a cidade de Munique, na Alemanha. “O rio hidrata as cidades, que são ilhas de calor, e existe uma preocupação internacional em reverter o quadro complicado do aquecimento global”, explica.

Para José, é questão de tempo até que todos se deem conta da importância de restaurar as águas enterradas nas cidades. “Recuperar nossos rios é possível, desejável e inevitável, mas depende do entendimento e do desejo de muita gente”, diz. “Já abrimos algum rio em São Paulo? Não, estamos abrindo a cabeça das pessoas. E quando abrirmos a cabeça de milhões, não tem mais volta”.

beijos,

Fotos: Thays Bittar | Reserva

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