Leandro Herrera, da Tera: o ensino na era digital

Como a educação pode acompanhar a velocidade de transformação da tecnologia? Foi para responder a essa pergunta que Leandro Herrera criou a Tera, uma startup que tem como missão formar uma geração de líderes na economia digital que respondam às novas demandas das empresas. Um dos objetivos é deixar para trás um currículo generalista e fragmentar em competências que estão sendo cada vez mais procuradas no mercado de trabalho, tanto no Brasil quanto no mundo. “Às vezes o que está faltando é só uma peça e você não precisa de uma pós-graduação para conseguir essa competência, mas sim uma via expressa que te coloque em outro lugar”, diz. “As universidades começam a montar um curso dois anos antes, então você está planejando para alguém que vai se formar daqui a seis anos. Que lógica tem isso no mundo de hoje?”.

O programa de cursos da Tera conta com bootcamps, que são imersões de 8 a 12 semanas, para formação de designers de experiências, gerentes de produtos digitais e cientistas de dados com aprendizado de máquinas. No ano que vem, outras habilidades no universo da tecnologia serão contempladas em cursos de curta duração. Há mais de uma década trabalhando com soluções digitais, com passagens pela Endeavor, Flag e Geekie, Leandro conta a seguir o que esperar da educação em tempos de transformação – e como não ficar para trás.

Fotos: Thays Bittar | Reserva

O aprendizado nunca para

“A gente sempre deu muita ênfase aos períodos iniciais de formação até a graduação, que é quando você ganha as competências para o que vai fazer da sua vida. O que a vivemos agora é a fase da educação continuada, para toda a vida. Se hoje eu tenho 40 anos, tenho mais 20 anos de vida produtiva. Então em duas décadas, o conjunto de competências que adquirir vai ter muito mais peso que os anos iniciais. Essa é a ideia do life long learning, de que ao longo da vida a gente vai ter que fazer imersões mais curtas, mais profundas e mais relacionadas ao desafio que estamos vivendo naquele momento, com aplicabilidade imediata”.

Em qual etapa você está?

“Muitas vezes as pessoas nem sabem o que procurar. As fases de aprendizado de um adulto se dividem em 4. A primeira é que você não sabe o que você não sabe. Se você me perguntar sobre oncologia, por exemplo, eu nem sei o que não sei. A segunda etapa é quando a pessoa sabe o que ela não sabe. Esse é o melhor momento para aprender. O terceiro estágio é quando você sabe o que você sabe. Então você já passou pelo processo e aplicou aquilo. E a quarta etapa é quando você não sabe que você sabe. É o momento que as coisas já entraram tão no automático que você acha que todo mundo sabe aquilo, já virou uma coisa comum. Aí fica mais difícil de se renovar porque você começa a perder um pouco de clareza sobre aquilo que você sabe. Um estudo mapeou que até 2030 umas das principais competências que a pessoa precisa ter é estratégia da aprendizagem. Eu acho que hoje já estamos nesse lugar”.

Novas oportunidades surgem o tempo todo

“Dentro dessa ideia de educação continuada, quando você cruza isso com tecnologia e mercado de trabalho, é exatamente a discussão que está rolando no mundo sobre skill gap, o gap entre as necessidades das empresas e as habilidades dos profissionais. Isso está acontecendo no mundo inteiro, mas aqui no Brasil a gente tem déficit em várias áreas que não existiam 5 ou 10 anos atrás. Ou que existiam e não tinham tanta importância, que deixaram de ser técnicas para se tornar estratégicas e ninguém viu direito. Se você começa a ensinar lógica de programação hoje para as crianças, daqui a 15 anos o gap de pensamento computacional talvez não exista. Mas a necessidade é hoje. Então precisamos pegar os profissionais que já existem e ensinar a eles rapidamente uma competência que estão precisando no mercado de trabalho”.

Necessidades antigas, soluções inovadoras

“No conceito de bootcamp, saem os professores da academia e entram os profissionais que estão atuando em empresas de tecnologia e inovação e criando os produtos para atender necessidades que já existiam, mas de um jeito novo. O Nubank, por exemplo, não atende à uma necessidade nova, mas à antiga necessidade de as pessoas terem mais controle sobre sua vida financeira. Só que a forma como elas faziam isso era totalmente inadequada diante das possibilidades que a gente tem no mundo de hoje. Se a gente pensar no mercado de telecomunicações, é uma demanda que está sendo atendida muito mal. Eu espero que uma hora apareça uma solução nova. Mas isso não vai acontecer se não tivermos talentos e pessoas que saibam usar suas competências para criar soluções”.

O que o mercado está procurando?

“Uma coisa importante para qualquer ofício é a transdisciplinaridade. Cada vez mais se destacam os profissionais que têm uma combinação de competências que teoricamente não fazem parte do mesmo mundo. Então um roteirista que vai aprender ciência de dados talvez seja aquele um em um milhão capaz de escrever uma série sobre ficção cientifica. Se você conseguir analisar onde está a maior parte da demanda global de competências e dedicar um tempo a aprender aquilo, sua empregabilidade vai aumentar muito. Há vários estudos que mostram isso. O próprio LinkedIn elenca as posições que estão sendo mais procuradas no mercado”.

Combinar propósito e demanda

“Eu questiono muito essa visão hedonista de só fazer o que te dar prazer, o que te dá propósito. Como se a gente tivesse muita clareza sobre isso… Acho que por isso tem que ter certa racionalidade, que é onde a gente se perde. É um casamento do que você gosta de fazer, seu propósito e de onde você está partindo com uma estratégia e um olhar para onde o mundo está indo. O que as pessoas estão procurando? Será que eu consigo somar a isso e ficar mais forte? As escolhas que a gente faz em educação na vida adulta tendem a ser menos por curiosidade e mais por uma estratégica”.

Olhar as habilidades do futuro

“Se alguém hoje tem 50 anos hoje e tem mais uma década de vida produtiva, precisa aprender coisas novas. Se você se propõe a aprender uma coisa que é muito escassa no mercado, em seis meses sua carreira pode mudar de posição. E são janelas de oportunidade. Talvez daqui a 5 ou 10 anos vai ser outra coisa e a gente não sabe o que. Tem um dado que diz que, até 2030, 85% das profissões serão novas, ou seja, coisas que a gente nem conhece. Há dez anos, dizer que existiria o designer de experiências é como hoje falar que vai existir arquiteto de realidade virtual. Do ponto de vista de quem está construindo esses processos de formação, começa a ficar cada vez mais um exercício quase que de futurologia. De olhar as tendências de tecnologia com transformação de mercado. É preciso prestar atenção em quem está mapeando isso”.

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