André Barrence, do Google Campus SP, e o ecossistema brasileiro de startups

Prestes a completar um ano e meio de vida, o Google Campus São Paulo possui o maior número de membros entre as unidades espalhadas pelo mundo. A operação brasileira, liderada por André Barrence, funciona não só como apoio às startups, mas também como uma aceleradora de todo o ecossistema brasileiro. “Esse processo já traz uma boa perspectiva dos resultados que virão no futuro”, diz. “As startups de hoje vão transformar a forma como vivemos”. A cada seis meses, projetos promissores são selecionados para se tornarem residentes no campus em São Paulo. As startups escolhidas não pagam nada para serem aconselhadas pelos mentores da casa, além de terem acesso aos recursos do Google. O espaço também recebe cursos, workshops, eventos e funciona como um coworking de empreendedores.

Com o olhar apurado de quem vive mergulhado neste universo, André Barrence conta o que é importante saber antes de se arriscar na área da tecnologia. Afinal, o próximo Google pode nascer a qualquer instante.

André Barrence, diretor do Google Campus São Paulo, e o ecossistema brasileiro de startups

Fotos: Thays Bittar | Reserva

Ideia guardada é ideia desperdiçada

“Todos nós somos capazes de gerar um número infinito de ideias. Ideias são commodities, a execução não é. Isso significa que nada impede que, enquanto eu estou tendo uma ideia, você está pensando em algo parecido. Então se você começar rapidamente a execução, já sai na frente. Os empreendedores que se dedicam integralmente àquilo conseguem avançar rápido, o que é um valor muito importante nesse ambiente. Eu simplesmente me privar de compartilhar uma ideia porque acho que alguém pode roubá-la é uma grande bobagem. Porque o que diferencia é a capacidade de fazer. Boa parte das ideias nascem incompletas e ao compartilhar você vai lapidando aquilo e trazendo gente boa para dentro do barco”.

Foco nas habilidades certas

“Talento é algo abundante no Brasil. Somos muito criativos e capazes de lidar com adversidades. Mas para construir empresas de tecnologia como são as startups, que crescem muito rápido, precisamos de alguns talentos que tenham skills mais específicas. Existe, por exemplo, o que chamamos de PO, o product owner ou product manager, que são pessoas capazes de criar uma visão e construir aquele produto ao longo do tempo, pensando em como o usuário vai interagir, qual vai ser a resposta, o engajamento, etc. Isso não é uma capacidade que a gente tem hoje em abundância no ecossistema. Então você percebe que ali há uma oportunidade, um caminho que vai se tornar cada vez mais demandado. Os talentos que temos precisam ser lapidados para trabalhar nesse novo ecossistema que vemos surgindo no Brasil”.

Qual empreendedor é você?

“Normalmente existem três empreendedores diferentes: o que entende oportunidades que surgem em diferentes setores; aquele trabalhando com necessidades, que no nosso caso podem ser ineficiências; e os empreendedores que estão visionando o futuro, rompendo grandes paradigmas, grandes barreiras e dando saltos de inovação. Eu gosto de empreendedores que resolvem problemas reais, concretos e grandes. Assim as pessoas têm vontade de usar e inclusive de pagar por aquele produto”.

Navegando nas oportunidades

“O Brasil é um playground de oportunidades para empreendedores porque temos muitas ineficiências em diferentes setores, que trazem oportunidades de soluções que podem se tornar algo indispensável na vida das pessoas. O Waze, por exemplo, virou algo tão essencial que é quase impossível pensar em como a gente existia sem ele. Buscar essa sensação de ‘não sei como ninguém pensou nisso antes’ parece simples, mas não é. Talvez seja isso que vemos os melhores empreendedores e startups do mundo fazendo. E uma das coisas que mais me chamam a atenção é que isso muda comportamentos. No Brasil temos ineficiências, e portanto oportunidades, em setores como o das finanças, da mobilidades urbana, das telecomunicações, da educação…”

Conheça o seu público

“Gosto de questionar as pessoas sobre qual é o problema que elas querem resolver. Por vezes vemos as pessoas pulando essa etapa e indo direto para a solução. Mas a solução só vai ser interessante se resolver um bom problema, relevante para um número significativo de pessoas. Então é muito importante ser capaz de escutar, observar, questionar, perguntar e validar. O Larry Page, fundador do Google, fala: não existe nada mais valioso do que observar as pessoas, nas suas vidas, no mundo real. Olhar como elas interagem com as coisas e com determinadas situações é uma forma de validação. Coletando essas informações você é capaz de formular hipóteses inicias. E precisa testá-las de maneira rápida e barata. Eu vejo as pessoas investirem muito tempo, dinheiro e esforço sem ter essa prévia validação e sem um teste de hipóteses”.

Precisamos falar sobre o risco

“Em lugares do mundo onde há boas comunidades de startups, ser empreendedor é algo bem visto, uma atividade quase desejada pelas pessoas. No Brasil ainda não temos essa cultura totalmente consolidada. Parte dessa cultura empreendedora é você abraçar e estar ok com o risco. Isso é algo pouco falado. A gente fala depois que a coisa já aconteceu e virou uma história de sucesso. Mas o risco é talvez a parte mais crítica de qualquer negócio, principalmente naqueles de tecnologia. Precisamos de uma cultura que reconheça o valor de quem se arrisca.”

Como formar o time perfeito

“Tecnologia é uma criação de pessoas, com suas experiências e capacidades. As melhores startups que eu conheço têm times incríveis. Pessoas com capacidades complementares, mas um alinhamento num determinado propósito. Elas vão descobrir juntas qual é o melhor caminho. É se afastar do mito que uma pessoa sozinha vai ter uma ideia genial. Normalmente são empreendedores que conhecem muito sobre determinado assunto, têm clareza sobre o que querem e estão inconformados com a situação atual. A combinação de obstinação com conhecimentos e capacidades complementares faz com quem você atraia mais pessoas que compartilham dos mesmo valores.”

Dinheiro na medida certa

“A gente falar que é preciso ter capital em abundância, mas o importante é o capital necessário para fazer as empresas crescerem com velocidade. O que a gente vê é que quando há um excesso de capital você tem valuation de empresas irreais e o crescimento de algumas bolhas de setor. O que a gente precisa é de capital produtivo, que ajude as startups a crescerem, ganharem tração, melhorarem seus produtos, ampliarem seus times e fazerem os seus negócios crescerem. Os empreendedores são demandados a tomar decisões recorrentes sobre dinheiro – seja para investir, contratar alguém para o time, captar recursos ou vender a empresa. Existe o mito de que é necessário captar dinheiro para chegar em algum lugar. Mas a pergunta sempre é: para quê? A clareza dos porquês ajuda nesses momentos de decisão”.

Síndrome de terceiro mundo

“A gente precisa fugir um pouco da síndrome de que o que está sendo feito de melhor está fora do Brasil. Não adianta fazer comparações com realidades diferentes ao invés de nos colocar como um ecossistema global. Podemos ter referências, já que há boas experiências ao redor do mundo, mas nunca numa visão de replicar. A única diferença entre o Brasil e ecossistemas como o Vale do Silício e Tel Aviv é que eles começaram bem antes e fizeram a lição de casa, olhando as deficiências e oportunidades para construir espaços onde empresas de tecnologia de alto potencial se sentem atraídas para começar e crescer. Temos que andar rápido porque começamos depois, mas não significa que vamos permanecer atrás”.

Expandindo territórios

“O que é feito em São Paulo ou no Brasil não é algo restrito ao mercado nacional. Se olhamos para a América Latina, vemos que existem os mesmos problemas, na mesma proporção, senão maior. Então quando você decide construir aqui algo relevante, com alto potencial de crescimento e impacto, é possível levar isso para mercados que tenham características parecidas com o Brasil. Economias emergentes em tecnologia, com uma penetração de smartphones que torna a distribuição algo cada vez mais viável em tecnologia. Precisamos desse modelo mental para criar algo com qualidade e potência global. Eu gosto de pensar que em 2 ou 3 anos vamos ver boa parte das startups brasileiras ocupando também os mercados no exterior de uma maneira muito natural”.

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