Tallis Gomes, da Easy Taxi e Singu: as lições de um empreendedor inovador

A vontade de comprar uma bateria nova para sua banda de rock foi o gatilho para o primeiro negócio de Tallis Gomes. Ele tinha apenas 14 anos quando começou a revender celulares pela internet para juntar dinheiro no pequeno município de Carangola, interior de Minas Gerais. Uma década e algumas aventuras no universo dos negócios depois ele criou a Easy Taxi, startup que se tornou um dos maiores aplicativos de táxi do mundo. Nos cinco anos em que esteve à frente da empresa como CEO, cargo que deixou em 2015, Tallis levou a companhia a 420 cidades em 35 países. O empreendedor usou a experiência desta empreitada para lançar no ano passado um novo negócio, a Singu. Trata-se de um aplicativo que conecta os clientes a profissionais autônomos que oferecem serviços de manicure, depilação e massagem. Com poucos cliques, é possível agendar um horário com aquele que estiver disponível perto de seu endereço.

A empresa é o primeiro marketplace de beleza e bem-estar do Brasil e rendeu à Tallis o título de um dos jovens mais inovadores do Brasil pelo MIT Technology Review, revista do prestigiado instituto americano. Seu trabalho na Easy Taxi já havia o colocado na lista Forbes Under 30. Este ano, Tallis resolveu transformar sua experiência no livro “Nada Easy”, em que relata o que aprendeu na hora de tirar uma ideia do papel e fazer o negócio dar certo. “Muita gente fala que para empreender tem que ter atitude, mas isso todo mundo sabe”, diz. “O grande problema é que quando a gente quer fazer uma coisa grande e fica sem saber por onde começar”. A seguir, Tallis dá uma palinha de tudo o que tem a ensinar.

Fotos: Thays Bittar | Reserva

Fazer, fazer e fazer

“Ao invés de contratar estudos gigantes de consultoria, é melhor focar em saber qual o tamanho do meu mercado como um todo e o meu mercado endereçável, que é o que eu quero atingir. É necessário entender qual o mínimo que eu preciso construir para que as pessoas comecem a consumir meu produto. E como faço isso? Criando o MVP [minimum viable product]. No primeiro dia da Easy Taxi, eu criei um formulário que pedia o nome, o telefone e o endereço de onde a pessoa estava. Essa informação chegava no meu email, eu colava no Google Maps e ligava para o ponto de táxi mais próximo. Em um dia, construí um MVP que é um dos mais complexos. Tudo é possível resolver assim. Quando o negócio está na rua, rodando e vivendo problemas reais, você não precisa ficar imaginando.”

Um time vale mais que uma ideia

“Meu avô costumava dizer que ideia não vale 10 centavos a bacia. O investidor não investe em ideia, mas sim no time e na concepção dessa ideia. Você precisa ter um time muito bom, um produto validado e pessoas pagando recorrentemente para usar seu serviço ou comprando o produto que você tem. Aí o investidor tende a olhar com melhores olhos esse negócio. Mesmo assim é muito difícil. No Brasil, o juro real bate 5% ao ano, ou seja, é o que o dinheiro vai render se você deixar ele parado. Isso faz com que seja um dos piores países do mundo para se empreender e torna-se mais difícil conseguir capital para inovação.”

Expansão cuidadosa

“Na Easy Taxi, fomos para 35 países e 20 milhões de clientes em três anos. Isso me custou muito dinheiro. Depois eu pensei que isso não faz muito sentido para um fundador porque a cada rodada de investimento você se dilui e troca dinheiro por parte da empresa. Precisa ter um delta mais equilibrado: quanto você quer crescer e quanto você pode crescer. Na Singu, decidimos expandir regionalmente mais lentamente, mas crescer de forma orgânica mais rápido. A gente foca em São Paulo e cresce mais de 30% ao mês dentro do mercado. A essa altura, com a Easy Taxi, eu já estaria em 18 países. Desta vez optei por não fazer isso para crescer com qualidade. Por isso nossa recorrência é uma das maiores do mercado. Você controla mais a empresa e tem uma qualidade melhor de usuários. Não é só adquirir usuários, é fazer com que eles tragam mais dinheiro para a companhia”.

Barrando a concorrência

“Antes de lançar a Singu, fizemos a análise do tamanho de mercado, já que era muito importante entender o que a gente ia criar. Quando vimos que o Brasil era o 3º maior do mundo no setor, pensei: opa, aqui há a possibilidade de criar uma barreira de mercado e impedir que os competidores entrem. Quando você começa, e eu geralmente sou pioneiro nesses mercados, você abre a trilha para as pessoas passarem. Sou eu que estou treinando essas prestadoras de serviço, convencendo elas a ter plano de dados no celular para usar o aplicativo. Então depois fica fácil para os outros competidores. A gente aprendeu isso com a Easy Taxi e também a criar essa barreira. Se o único bem finito é o tempo, estamos tomando todo o tempo das prestadoras para gente. Se elas têm uma previsibilidade de receita no fim do mês e estão satisfeitas com a empresa, não querem saber de outro serviço”.

Parar é preciso

“Quando criei a Easy Taxi achava que quanto mais horas de trabalho tivesse, melhor seria o resultado. Isso é verdade em partes. Se você está muito cansado, sua produtividade cai. Chegou um momento em que eu estava com o colesterol altíssimo e 18 quilos acima do peso. E percebi que estava trabalhando pra caramba e entregando muito menos coisas. Hoje eu faço jiu-jitsu todos os dias para liberar a adrenalina. Treinar me ajuda a pensar, ter tranquilidade na hora de tomar decisões e me trouxe um físico que eu não tinha sete anos atrás. Quem quer viver em alta performance tem que conciliar saúde, exercício físico e alimentação. Eu também achava que era só trabalhar, mas hoje vejo que horas de trabalho não adiantam nada, mas sim horas de produtividade”.

O aprendizado nunca acaba

“Não dá para parar de buscar conhecimento porque a gente vive tempos de mudanças exponenciais. Se você não se atualizar constantemente vai ficar obsoleto muito mais rápido que antigamente. Quando comecei a Easy Taxi, a ferramenta de marketing que bombava era o Google Mobile. O Facebook estava começando. Hoje tem Facebook, Snapchat, um monte de ferramentas com recorte demográfico, geográfico… Se tornou mega complexo. O cara que era o melhor do mundo em 2011 já não sabia nada em 2013 e hoje não tem nem emprego. Eu separo uma hora por dia para estudar, ler algum livro ou um artigo. É fácil ler duas páginas e deixar de lado. Mas não pode, tem que criar o hábito de terminar o livro, de começar uma coisa nova, para não ficar obsoleto”.

Levando a experiência além

“Eu comecei a pensar em escrever um livro porque não dou conta de responder as centenas de mensagens que recebo todos os dias. E eu me sinto mal porque já fui essa pessoa que perguntava e ficava puto quando liam e não me respondiam. O livro “Nada Easy” é basicamente tudo o que eu queria ouvir quando comecei a empreender, em diferentes fases. Dificilmente alguém vai me fazer uma pergunta que não está respondida ali. Não é um livro técnico, a linguagem é coloquial e coloco conceitos extremamente complexos de forma simples. É interessante que o fruto do meu trabalho sirva de bússola para as pessoas, que às vezes têm sua vida transformada porque precisavam ler aquilo naquele momento. É a melhor forma que existe de devolver um pouco o que já fizeram para mim”.

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