Marcelo Haydu, do Adus, e a integração de refugiados em São Paulo

Fala galera,

Em abril de 2013, Marcelo Haydu recebeu a notícia de que o conselho do Instituto de Reintegração do Refugiado (Adus), ONG de apoio a refugiados em São Paulo da qual ele era fundador e diretor, queria encerrar o projeto. Os argumentos expostos durante a reunião eram difíceis de rebater: a iniciativa não tinha decolado apesar de três anos de trabalho intenso e, além disso, Marcelo estava desempregado, tinha 34 anos e uma filha pequena para criar. Para os conselheiros, era hora de desistir e seguir adiante. Para ele, não. “Consegui convencê-los a esperar até o final do ano para tomar essa decisão, mas já estava certo de que tocaria o instituto sozinho se fosse preciso”, relembra.

Fotos: Thays Bittar | Reserva

O professor de sociologia não queria abrir a mão de uma história que começara em 2006, durante o curso de Relações Internacionais na PUC-SP, quando decidiu estudar a questão dos refugiados no Brasil inspirado pela história de seu avô, que fugiu da antiga Iugoslávia no fim da década de 1940. “Na época, escrevia-se muito pouco a respeito do tema, já que no Brasil existiam menos de 3 mil refugiados”, explica.

A curiosidade acadêmica acabou se transformando em um trabalho de conclusão de curso e, posteriormente, em um mestrado sobre a imigração de angolanos para o Brasil. Foi assim que ele conheceu e entrevistou dezenas de expatriados, que começaram a lhe pedir ajuda para arranjar emprego na cidade. “Conversei com conhecidos para ver se encontrava alguma oportunidade de trabalho para indicá-los e aí percebi a falta de informação a respeito do que é um refugiado”, conta ele, que teve de esclarecer inúmeras vezes que não estava tentando empregar criminosos internacionais.

“A tendência é que o número de refugiados no Brasil cresça ainda mais, à medida em que os EUA e a Europa fecham suas fronteiras”

Por dois anos, Marcelo dedicou boa parte de seu tempo livre a acompanhar os estrangeiros nas mais diversas situações: de entrevistas de emprego a consultas em postos de saúde. Quando a demanda ficou alta demais, percebeu que era hora sair da informalidade. Foi então que se juntou ao ex-colega de faculdade Victor Mellão e ao professor Andrea Piccini para fundar o Instituto de Reintegração do Refugiado. Mas, agora, tudo parecia estar indo por água abaixo.

Na semana seguinte à reunião do conselho, ele decidiu reagir. Redigiu uma proposta de parceria e enviou para 7 escolas que ofereciam cursos de português para estrangeiros. A ideia era ensinar o idioma aos refugiados. Alguns dias depois, uma grande rede do ramo se interessou pelo projeto e ofereceu um curso de capacitação para professores e material didático para os alunos. Para viabilizar a parceria, em 15 dias, Marcelo encontrou um espaço e profissionais dispostos a ministrar as aulas. Foi fechado um contrato e, por consequência, inviabilizada a ideia de fechar o Adus.

“Eu estava fazendo algo em que acreditava. Não era algo que poderia dar certo, era algo que tinha que dar certo”, explica. “Não estava abrindo um negócio visando o lucro. O que queria era dar continuidade a esse trabalho em prol de pessoas que estavam vindo para cá, que estavam sendo tratadas de uma maneira marginal, sem nenhum apoio”.

A ONG, então, decolou e ganhou uma sede própria, localizada no centro de São Paulo, depois de dois anos de espera na fila da Secretaria de Patrimônio da União. No espaço, além das aulas de português, os imigrantes dispõem de um serviço de inserção no mercado de trabalho. Como em uma agência de empregos, eles têm seus dados cadastrados e são indicados para vagas compatíveis com seus perfis.

Além disso, a iniciativa passou a investir na criação de negócios de impacto social. No prédio da Avenida São João já funciona uma escola de idiomas onde refugiados ensinam inglês, francês e espanhol e são remunerados por isso. Outro projeto, de capacitação de personal chefs, está em vias de ser lançado, e permitirá que os formados no curso gerem renda cozinhando em eventos fechados.

Para Marcelo, o crescimento da ONG está diretamente relacionado à sua atuação. “Ganhamos visibilidade porque escolhemos um caminho diferente do assistencialismo, da caridade: não doamos nada”, analisa. “Partimos do princípio que essas pessoas precisam ter autonomia, andar com as próprias pernas”.

Hoje, o Adus conta com mais de 150 colaboradores – dos quais 135 são voluntários –, parcerias com empresas que custeiam seus projetos, um programa de doações chamado “Amigo Adus” e um bazar beneficente na Mooca. Em 8 anos de funcionamento, a instituição já atendeu mais de 5 mil pessoas, número que ainda deve crescer muito devido ao aumento das solicitações de refúgio no Brasil, que já passam de 40 mil. “A situação brasileira mudou drasticamente. Para se ter uma ideia, em 2010, eram 700 solicitantes”, recorda. “E a tendência é que esse número cresça ainda mais, à medida em que os EUA e a Europa fecham suas fronteiras aos refugiados”.

Beijos,

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