Bia Bittencourt, da Feira Plana, e os desafios para sustentar um negócio independente

Na primeira vez que visitou Nova York, Bia Bittencourt ficou deslumbrada com o universo das publicações independentes reunidas na Art Book Fair, feira que recebe livros, catálogos, zines e periódicos de artistas do mundo todo. “Fiquei intrigada que não existia nada parecido no Brasil, voltei para cá e fiz um projeto”, diz. “Quase ninguém se enquadrava nesse formato que a gente conhece de pequena editora, então fui chamando amigos artistas que eram potenciais fazedores de livros”. Assim nasceu a Feira Plana, que realizou seu primeiro evento em 2013 e reuniu 250 expositores e 18 mil visitantes na edição deste ano, na Bienal de São Paulo.

No ano passado, a Plana também ganhou um espaço físico, que guarda uma biblioteca com 4 mil títulos e oferece cursos na capital paulista. A sexta edição do projeto está programada para março de 2018, desta vez na Cinemateca Brasileira. Mas não é fácil manter em pé um negócio totalmente independente que impulsiona um mercado igualmente independente. “Quem está do lado de fora só enxerga a parte boa, até porque a gente faz um esforço para receber todo mundo bem, não só no dia do festival”, diz. A seguir, Bia conta as dificuldades que encontrou e o que aprendeu pelo caminho.

Fotos: Thays Bittar | Reserva

Entendendo um novo movimento

“Quando comecei a feira, não sabia o que seria. Era algo meio sem forma, experimental até demais. Eu fiz uma chamada aberta e perguntava na inscrição o nome da sua editora fictícia. Então mesmo que a pessoa não tivesse uma editora formalmente, ela tinha que envelopar aquilo com um nome e pensar em como fazer livros dentro de uma narrativa própria. Na segunda edição começaram a se inscrever pessoas com editorinhas formalizadas e o público que veio na primeira apareceu como expositor na feira seguinte. Mas é um movimento que a gente ainda está tentando entender para onde vai, se dura… O Brasil tem um perfil econômico diferente dos Estados Unidos ou da Europa, onde esse mercado já está consolidado. Minha pesquisa está sendo justamente tentar entender a cultura de publicações em países em desenvolvimento”.

Os desafios de crescer

“Esse ano foi um muito difícil para todo mundo. Para a Plana especialmente porque foi justamente o ano em que eu decidi transformar a feira em um negócio enorme, na Bienal de São Paulo. Foi muito caro fazer o evento lá porque não existe qualquer estrutura. Tive de fazer parede, auditório, chamar um eletricista que trabalha com edificações tombadas e tudo isso quadruplicou o orçamento. Financeiramente fiquei com uma dívida e até agora estou pagando os fornecedores, mas ao mesmo tempo isso trouxe uma visibilidade enorme para a Plana. A próxima edição decidi fazer com custo quase zero. A Cinemateca Brasileira topou ser parceira e convidei 15 pessoas, entre editores e artistas, para fazer a curadoria colaborativa comigo. Estou meio que esparramando, distribuindo as funções e fazendo parcerias”.

Criando raízes

“A Casa Plana nasceu da necessidade que eu estava sentindo de perpetuar o projeto pelo resto do ano. Porque dá muito trabalho fazer a feira acontecer, mas ainda tinha muita coisa para agitar. Durante o festival eu não gosto de fazer workshops porque acho que fica raso, então organizo falas, performances, mesas… Então fiz um financiamento coletivo para abrir um espaço que pudesse receber esses cursos, além da nossa biblioteca. Atingimos a meta de 60 mil reais, mas não deu nem para um mês porque abrir um espaço é uma loucura. O dinheiro acabou muito rápido e tive que fazer o negócio funcionar, a roda girar”.

Dividir para multiplicar

“Acho importante manter poucas coisas escondidas dentro de potes. Na Plana é tudo muito aberto. As pessoas sabem como é fazer a feira, eu respondo qualquer coisa que me perguntem e se quiser ver a planilha está ali. Quando eu tive o problema da dívida e não tinha de onde tirar o dinheiro, fiz um texto no Medium contando e propondo soluções para resolver. Foi muito legal porque veio gente de todo lugar oferecendo ajuda, perguntando se podia colaborar de tal maneira. Isso puxa as pessoas para perto, cria esses laços. O pessoal se ajuda bastante. Não é como o mercado da arte, por exemplo, que é uma grande guerra o tempo inteiro. As pessoas colaboram e se apoiam. Estabelecer laços e parcerias é o grande segredo nesse mercado”.

Pausa para repensar

“Na última edição entrei um pouco em crise porque vi coisas muito rasas, sem profundidade nenhuma. E eu me perguntei: para onde vai isso? A grande luta é para que esse movimento amadureça no conteúdo, para fazer com que as coisas sendo produzidas sejam relevantes para o mundo. Eu vi as pessoas enlouquecidas comprando muitas publicações e fiquei pensando o que elas faziam com aquilo depois. Por isso o tema da próxima edição da Plana é o nada. Uma tentativa de voltar para a essência, dar muitos passos para trás e se voltar para o livro e não para o consumo. A ideia vai ser discutir um pouco isso, se é bom ou ruim”.

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