Adriana Barbosa, da Feira Preta, e o fortalecimento do afroempreendedorismo

Eleita no ano passado uma das 51 pessoas negras mais influentes do mundo com menos de 40 anos pela organização Most Influential People of African Descent (MIPAD), Adriana Barbosa começou a empreender cedo. Ela tinha 24 anos quando criou a Feira Preta, evento anual que reúne iniciativas colaborativas que reforçam a identidade afro-brasileira e estimulam o empreendedorismo étnico.

Na 16ª edição, realizada em novembro do ano passado em São Paulo, 25 mil pessoas e mais de 100 empreendedores estiveram na feira que hoje é a maior celebração da cultura negra na América Latina. “Boa parte das pessoas que frequentavam a Feira Preta resolveu empreender a partir dali porque pensava: ‘preciso fazer alguma coisa para atender a esse público”, diz. “Quando a gente começou ainda se falava pouco sobre afroempreendedorismo, mas foi se criando esse cenário”.

Aos 40 anos, Adriana sabe que muita coisa mudou para melhor, mas anseia pelo dia em que não vai ser a única palestrante negra em um evento sobre futuro e inovação. A seguir, ela fala sobre o que aprendeu nos últimos 16 anos, empreendendo por conta própria ou ajudando outras pessoas a seguir esse caminho através de projetos de aceleração e incubação de empreendimentos.

Fotos: Thays Bittar | Reserva

Pouco glamour, muito trabalho

“A vida de um empreendedor tem muitos altos e baixos e não é na primeira onda que você vai desistir ou recuar. Você vai ter que se manter firme e resiliente frente às adversidades. A vida de um empreendedor é como a vida de um ser humano: tem dias em que você está lá em cima, tem dias em que você está lá embaixo. O empreendedor é o que mais rala porque tem que tocar, afinar e carregar o piano. Não tem glamour nisso, mas sim muito trabalho”.

Transformação coletiva

“Não existe transformação de um só. A gente só conseguiu construir esse mercado que as grandes empresas estão acessando hoje porque enfrentamos em bloco. A Feira sozinha não faz história. Os jovens não tanto, mas geração passada teve que se descobrir e se valorizar para poder falar ‘sou negra’. Muitos contextos, movimentos culturais e ações afirmativas serviram para construir essa identidade forte que gera mercado. É o caso da transição capilar, por exemplo. Se hoje as empresas estão criando produtos voltados para cabelos crespos ou ondulados foi por causa de muitas mulheres”.

Empreendendo juntos

“O que a Feira Preta é como espaço empreendedor é também o que eu sou. Quando fomos fazer a feira pela primeira vez no Anhembi eles disseram que os empreendedores precisavam emitir nota fiscal – e boa parte daqueles que participavam dos eventos em ambientes públicos eram informais. Tivemos que capacitar os expositores para entrar no ecossistema de uma forma mais institucionalizada. E a Feira Preta também passou por isso. Eu tive que passar por isso. Então também a gente viveu toda essa jornada que os expositores passaram”.

Enfrentando os obstáculos

“Eu não tive um caminho de flores. A população negra este ano completa 130 anos de liberdade institucional. Então o meu lugar de partida é muito diferente do empreendedor não-negro que vem de uma tradição familiar em que o negócio passa de pai para filho e a riqueza também. A gente não tem essa cultura. Empreendemos por uma questão de sobrevivência. O grande desafio é como mudar essa lógica do ‘preciso me virar’. Se hoje mais de 50% das pessoas na categoria microempreendedor são negras, isso é um potencial e uma abundância. A lógica que precisa mudar também é do ponto de vista institucional, com políticas públicas que reconheçam que o empreendedorismo é um potencial para a população negra brasileira”.

Compartilhando experiências

“A Feira Preta começou como um espaço para celebrar e comemorar essas potências e dar visibilidade. Só que a feira foi crescendo e virou a maior referência na América Latina, não só do ponto de vista de festival, mas de empreendedorismo. Agora eu desejo que ela tenha uma capilaridade global, que se conecte com outras redes e consiga replicar essas boas práticas que acontecem em nível global. O que a feira faz é possível ser replicado em outro país e vice-versa. É preciso ter um olhar de ecossistema para entender como se desenvolver de forma sistêmica e estruturada, pensando no empreendedor, no consumo, na iniciativa privada, no poder público e na sociedade civil”.

Inspiração poderosa

“Muitas mulheres negras são inspiradoras. Eu me inspirei muito na minha bisavó, que era anônima e empreendia sem ter dinheiro. Ela falava: vamos fazer coxinha, vamos fazer quentinha. Ela tinha um requinte para pensar em estratégias para fazer aquilo dar certo sem nunca ter frequentado uma escola de marketing ou negócios. Para mim é uma inspiração saber que ela tirava leite de pedra. Ela é minha referência e onde busco minha energia. Existem muitas mulheres que contribuíram, sobretudo anônimas, e temos que dar visibilidade para essas histórias”.