Fernanda Bianchini, da Cia Ballet de Cegos: dançando no escuro

Fala galera,

Aos 39 anos, a fisioterapeuta Fernanda Bianchini já pode se orgulhar de ter dedicado uma vida ao voluntariado. Fundadora da Associação Fernanda Bianchini e da Cia Ballet de Cegos, duas instituições que promovem aulas de dança e outras artes para deficientes visuais, sua história como voluntária começou muito cedo.

Quando tinha apenas dois anos de idade, seus pais a levavam para ser assistente do Papai Noel na distribuição de presentes para crianças carentes. Desde então, ajudar os outros sempre foi tão natural quanto ir à escola ou fazer compras no supermercado. “Tem pessoas que nascem para se doar, outras não. E tudo bem, é normal”, diz Fernanda.

Fotos: Thays Bittar | Reserva

Aos 15 anos de idade, a fisioterapeuta ajudava os pais no Instituto de Cegos Padre Chico, uma tradicional instituição de ensino para deficientes visuais em São Paulo. Costumava visitar o local depois das aulas de ballet, ainda com a roupa do ensaio: sapatilhas, collant e, na cabeça, um coque bem aprumado.

O visual chamou a atenção de uma freira que trabalhava no instituto. Seria possível ensinar as meninas do Padre Chico a dançar? “Eu não fazia ideia, nunca tinha ensinado ballet para ninguém”, conta Fernanda. “Meus pais me aconselharam: ‘nunca diga não a um desafio’”.

Fernanda então disse sim. “Estou há quase 23 anos aprendendo muito”, diz. E ensinando também. De fato, não era apenas ela que não sabia se seria possível ensinar ballet para deficientes visuais. A iniciativa era (e ainda é) totalmente pioneira. A menina de 15 anos foi desenvolvendo uma metodologia própria no contato diário com suas alunas.

“Na primeira aula fui ensinar um passo e expliquei que as meninas deveriam se imaginar dentro de um balde, saltando para fora e aterrissando dentro dele novamente”, conta. “Uma menina então me perguntou o que era um balde. Não estava esperando aquilo. Percebi que precisava entrar no mundo do cego”.

“Eu aprendi a fechar os olhos da visão, que são preconceituosos, e abrir os do coração, que enxergam o mundo verdadeiro”

Para isso, Fernanda criou um método de ensino baseado no toque e na repetição de movimentos. Basicamente, os alunos tocam nos professores para entender os movimentos que estão sendo realizados. Com o tempo, a metodologia virou uma tese de mestrado. “Quando fui defendê-la, não acreditavam muito que aquilo era verdadeiro”, conta. “Tive que fazer um vídeo com as alunas para mostrar para a banca de qualificação”.

Convenceu os professores e muita gente mais. Desde 1995, a Associação Fernanda Bianchini e a Cia Ballet de Cegos já atenderam mais de 1000 pessoas. Hoje, cerca de 350 alunos, com idades que variam de 3 até mais de 60 anos, dividem-se em modalidades que vão do ballet à dança do ventre, passando por sapateado e teatro.

A companhia de dança já se apresentou em países como Alemanha e Estados Unidos, e realizou uma performance no encerramento das Paraolimpíadas de Londres, em 2012. Em 2016, o documentário “Olhando para as Estrelas”, de Alexandre Peralta, acompanhou a vida de duas de suas integrantes. Até mesmo o bailarino russo Mikhail Baryshnikov já palpitou na postura das bailarinas da companhia de Fernanda.

Tanto sucesso trouxe desafios para a fisioterapeuta. “Eu sempre fui uma bailarina mediana, então as meninas atingiram meu nível muito rapidamente”, conta. “Tive que contratar professores melhores para que elas não se limitassem ao meu nível. Hoje, são bailarinas completas”.

“As pessoas vêm aqui e se entregam para a arte. Esse é o meu objetivo de vida hoje. Tornar alguns sonhos possíveis e ajudar o mundo a ser um lugar melhor, mais inclusivo e menos preconceituoso”, diz Fernanda, que diz ter aprendido muito mais do que ensinado ao longo dessas mais de duas décadas. “Quando você venda seus olhos, deixa de ver aquelas coisas que nos diferenciam. Eu aprendi a fechar os olhos da visão, que são preconceituosos, e abrir os do coração, que enxergam o mundo verdadeiro”.

beijos,

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