Guilherme Lichand, da MGov: impacto social em 160 caracteres

As transformações muitas vezes vêm das soluções mais simples. Através de uma mensagem SMS, com 160 caracteres sem acentos, o economista Guilherme Lichand já conseguiu alcançar resultados impressionantes. À frente da MGov, consultoria que fundou em 2012, ele ajuda gestores públicos, fundações, institutos e organizações a causar impacto social e desenvolver políticas públicas mais eficazes.

Nas férias de verão de um doutorado em Harvard, nos Estados Unidos, Lichand foi trabalhar no Governo do Rio Grande do Norte. Se viu diante de um problema: o Estado queria avaliar seu programa de distribuição de leite, que pensava ser pouco eficiente, mas não dispunha do dinheiro necessário para contratar um instituto de pesquisa que fosse à região.

Inspirado em uma experiência do Banco Mundial, onde trabalhou antes do doutorado, Guilherme teve a ideia de fazer a pesquisa pelo telefone. Os beneficiados ganhavam crédito no celular se respondessem a uma pesquisa feita através de uma ligação automática ou mensagens de SMS. Duas ferramentas simples permitiram que o governo estadual identificasse problemas da distribuição de leite em menos de um mês.

Fotos: Thays Bittar | Reserva

Desde então, a MGov, que também tem como sócios o administrador Marcos Lopes e o publicitário Rafael Vivolo, descobriu que os canais que usava para receber informações sobre os usuários também serviam para enviar informações. Em parceria com a Caixa Econômica Federal, a plataforma da startup, a ImpactCom, manda mensagens SMS com dicas de educação financeira para beneficiados do programa Minha Casa Minha Vida. A mesma plataforma possui uma base de dados de 150 mil pais de alunos de escolas públicas que recebem mensagens que fazem parte de um trabalho de aproximação da vida escolar dos filhos. As pesquisas contratadas pela startup mostraram que o trabalho reduziu a repetição de ano em 3% em seis meses.

A ImpactCom possui uma base de dados com 170 mil pessoas espalhadas em mil cidades brasileiras. O foco é o público alvo de políticas públicas ou programas sociais, que usualmente são menos ouvidos pelos gestores. Por seu trabalho, Guilherme foi escolhido um dos principais inovadores do Brasil com menos de 35 anos e inovador social pela MIT Technology Review em 2014 e hoje é professor da cátedra da UNICEF de Economia do Desenvolvimento e Bem-estar Infantil da Universidade de Zurich. Ele preside o conselho da MGov, que nasceu para resolver um problema no Rio Grande do Norte e hoje oferece soluções de impacto para todo o Brasil e para países como Estados Unidos, Alemanha e Costa do Marfim. A seguir, ele conta o que aprendeu ao se tornar empreendedor.

Mirando certo

“Os problemas do Brasil são tão básicos que você faz coisas muito pequenas, como 2 SMS por semana, e já reduz a repetência no ensino público em 3 pontos percentuais. É muita coisa. Eu sempre falo isso para os empreendedores: você precisa conhecer muito bem o problema que você quer resolver. E vai ver que os problemas são tão básicos que se você pegar na bazuca para resolver você pode errar o alvo. A bazuca que eu penso é um aplicativo. Nós usamos um estilingue, mas acertamos bem na testa. Agora estamos aperfeiçoando o estilingue”.

Pequenas ações, grandes impactos

“Em um trabalho com crianças do 6º e 7º ano, com 12 anos, mandamos uma mensagem aos pais questionando qual tinha sido a última vez que ele tinha brincado com o filho. Era uma pergunta retórica porque dois dias depois viria um SMS sugerindo descobrir qual brincadeira o filho mais gostava. E uma mãe respondeu: foi quando ela tinha 7 anos. Então fazia cinco anos que essa mãe não brincava com a filha. Sugerimos a atividade dias depois e na semana seguinte a gente perguntou aos pais se eles tinham feito. E a mãe respondeu: sim, eu descobri que a brincadeira favorita dela é essa e a gente brincou. Pela primeira vez depois de cinco anos. E por quê? Por causa de um SMS. Então dá para fazer diferença de verdade para pessoas que precisam com muito pouco. Desde que a gente consiga chegar até elas do jeito certo”.

Maratona da ideia

“Ao invés de começarem com o problema, as pessoas querem começar com solução. Tem gente que diz que startup tem que ser escalável, então precisa ser um aplicativo. Se começou assim, provavelmente você está reduzindo muito o tipo de problema que você pode resolver. Se começar do problema, tem bem mais chance de chegar em um negócio que faça sentido. Tem um livro que chama “O Mito da ideia” e fala que a ideia inicial é diferente do que a empresa faz hoje. A essência está lá, mas é muito diferente. Isso é verdade para todo mundo. Twitter, Amazon… Nenhuma startup começou com o product/market fit certo. Então o que importa? Seus recursos humanos, financeiros, tecnológicos e sua rede, através dos quais você vai pivotar em torno da ideia original. O empreendedor tem que saber que a ideia é uma maratona, não uma corrida de 100 metros.”

Tentativa e erro

“A gente faz testes A, B, C, D, até o Z. A gente testa tudo. Quantos SMS entregar por semana, qual horário, que tipo de interatividade é melhor… Em um aplicativo é mais obvio para as pessoas que dá para testar, mas isso não é exclusivo do aplicativo. Quando somos motivados por impacto, é preciso testar para redesenhar o que não funciona. E para testar é preciso um avaliador independente porque se só eu avaliar meu impacto, quem vai acreditar?”

Lucro consciente

“A gente sempre foi for profit for purpose. Então nascemos for profit mesmo querendo causar impacto. Eu acho que esse é o único modelo escalável, sustentável. Primeiro porque o lucro disciplina a operação. Se você começa a ter um monte de gordura e não queima nada dela, começa a perder fôlego e sua capacidade de escalar e se movimentar rápido. Em segundo lugar, a sustentabilidade. Se você viver de doação, uma hora a doação vai embora… Para o negócio ser sustentável, ele precisa ter uma lógica de mercado. Aí você fala: ah, mas esse modelo é impossível. Porque se fosse verdade que existe um negócio que causa impacto e ainda dá dinheiro todo mundo estaria lá. As pessoas esquecem que existe um monte de barreira de entrada. Uma delas é trabalhar com o Governo. Pouquíssimas startups trabalham com o Governo hoje em dia. Também falta um time muito bom, uma tecnologia única… E assim por diante”.

O ritmo certo do dinheiro

“A gente nunca captou, não tem investidores e gosta muito disso. Antes métrica de sucesso era a captação de recursos. Para nós, a métrica do sucesso é o impacto. Captar cedo demais limita sua flexibilidade de fazer certas experiências. Em geral, para começar você não precisa de tanto dinheiro quanto acha. Precisa de um conceito relevante, começar a descobrir a demanda… Se puder surgir já com a demanda, quer dizer que já acertou alguma coisa sobre o product/market fit e é o melhor caminho. No começo você vai sempre achar que precisa de dinheiro, mas isso pode não ser verdade. E se não for, que bom. Quando você captar mais à frente já vai estar com o modelo provado, com tração e aí vai captar não para começar, mas para realmente dar o salto de escala que ambiciona.”

– INSPIRE-SE NO ESTILO DO GUILHERME

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