Jackie de Botton, da The School of Life: inteligência emocional é um músculo

Antes de abrir as portas da filial brasileira da The School of Life, escola britânica que se dedica a desenvolver a inteligência emocional com cursos de curta duração, a carioca Jackie de Botton experimentou um pouco de tudo em sua carreira. O encanto pelo empreendedorismo nasceu há quase duas décadas, quando ela fez parte da equipe que fundou a Endeavor no Brasil, instituição que promove e desenvolve o empreendedorismo . Depois disso, foi produtora e dona de uma empresa multimídia até assumir o desafio de levar para São Paulo a escola britânica fundada pelo filósofo e escritor Alain de Botton, primo de Jackie.

“Alain de Botton é conhecido por tirar a filosofia de um campo simplesmente acadêmico e focá-la nas questões do dia a dia”, diz. “O que a gente faz é consultar a filosofia e literatura antiga e moderna, a cultura dos homens dos últimos 2 mil anos, e tirar o que foi escrito de mais inteligente para ajudar a lidar melhor com as questões do cotidiano”. O Brasil foi o primeiro país de língua não-inglesa a ter uma sede da The School of Life, que abriu as portas em Londres em 2008 e chegou à capital paulista em 2013. “Na escola a gente acredita que é possível aprender a viver melhor. E esse aprendizado não vem de uma forma intuitiva, mas sim de forma prática, em que você exercita algumas características suas. Existem técnicas para melhorar sua relação emocional com o mundo”, explica Jackie.

A diretora da The School of Life no Brasil acredita que o autoconhecimento é uma das ferramentas mais importantes para o sucesso. “Vejo um desejo enorme das pessoas em se conectar com si mesmas, em diferentes áreas. Eu não sei se é uma nova era, mas existe um movimento mundial para que você tenha liberdade de procurar qual vida é a sua vida”. A seguir, ela conta quais as melhores maneiras de exercitar a inteligência emocional e o que aprendeu empreendendo.

Fotos: Thays Bittar | Reserva

O outro lado da história

“A gente fala do sucesso profissional tanto quanto a gente fala da sua capacidade de lidar com o fracasso. Porque se você está decidida a ter um sucesso você não pode tirar da equação que seu maior professor é o fracasso. Não que a gente incentive que você fracasse, mas a questão é como você lida com isso em algumas áreas. Existe na nossa sociedade um enaltecimento ao sucesso. As pessoas, quando contam suas histórias, tendem a não dizer que elas aprenderam efetivamente quando as coisas começaram a dar errado. O Alain de Botton tem uma frase que diz que as pessoas ficam verdadeiramente interessantes quando elas começam a chacoalhar as barras das suas jaulas”.

Aprender a perder

“Será que se você decidir ser uma pessoa muito bem-sucedida na sua área profissional você vai ter sucesso na sua área emocional? Qual dos dois você privilegia? É muito pessoal essa resposta, mas você tem que entender que um implica em perder um pouco do outro. É impossível você ser bom em todas as áreas. E isso tem que ficar muito claro porque essas conclusões e essas percepções nunca são colocadas. Se você privilegia sua vida profissional você tem que abrir mão de alguma área da sua vida. Se não é a amorosa, é a familiar. Se não é a familiar, é a dos seus amigos. Se não é a dos seus amigos, é o tempo que você passa lendo… Não cabe tudo. O grande problema é que as pessoas, quando tomam decisões, não trazem junto para o bolo das decisões o que elas vão ter que abrir mão”.

A mudança em pequenos passos

“A ideia que a gente tem sobre como implantar mudanças é você começar muito pequeno. Então digamos que eu queira ser fotógrafa, mas sou mãe de 3 filhos, tenho uma escola, dois cachorros… Como fazer isso? Ao invés de procurar um curso caríssimo de 3 anos em uma escola profissional de fotografia, você procura uma amiga que é fotógrafa e fala: posso te acompanhar no final de semana? Se aquilo te parecer interessante, você começa a fazer todo final de semana. Depois você pega um curso que aconteça a cada 15 dias, por exemplo. Se o caminho que você está percorrendo fizer com que você se sinta dentro do seu propósito, é muito mais fácil de segui-lo do que ficar dentro da sua mente com uma ideia que você gostaria de fazer. É melhor começar com pequenos experimentos, pequenos passos na direção que você acha que é a que você deve ir”.

Não boicote a si mesmo

“A síndrome do impostor é quando você começa a desenvolver uma nova habilidade e dentro de você existe uma voz que fala: você não sabe o que está fazendo. E só existe uma maneira de lidar com isso. É o que a gente chama de leap of faith, um pulo de confiança. Em algum momento você tem que falar: olha, pode ser que eu seja um impostor ou não, mas vou ter que ir lá fazer. Quando você traduz essas questões emocionais da cabeça, do indivíduo, para formas com que você pode lidar com aquilo, é muito mais fácil de aprender uma técnica”.

Filtrando conhecimento

“Eu daria o conselho para que as pessoas lessem mais. Principalmente clássicos, livros que foram escritos há mais de 500 anos. Porque a essência humana não mudou. E muito do que a gente escuta atualmente é um pouco de uma poeira que nos perturba em relação ao lugar que você realmente tem que acessar. E aí a gente tem o papel de ter acesso a todo tipo de informação atualmente, mas também nesse todo tipo de informação, o quanto ela te ajuda ou o quanto ela gasta seu tempo. Por isso o papel do curador vai ficar cada vez mais fundamental na sociedade.”

Paciência de empreendedor

“O que eu aprendi como empreendedora é que leva muito mais tempo e é muito mais difícil do que você imagina. Então você resolve 3 problemas e aparecem 5 problemas. Você resolve 2 dos 5, aparecem 25. Aí você resolve 30 e aparecem 18. Isso é uma constante de quem quer empreender. Você de alguma forma tem que estar muito acostumada a resolver problemas e a não perder a paciência. A paciência é uma virtude. Quando abri a The School of Life, achei que ia ser muito mais rápido encontrar uma sede, montar as aulas, treinar os professores. E na hora que você faz isso tem um professor super bacana que fala: olha, estou indo passar 6 meses num sabático. E a vida é isso. Tem esse imponderável constante. É uma lição muito forte”.

Sorte existe, sim

“Quando produzi o documentário ‘Lixo Extraordinário’, do Vik Muniz, aprendi que existe um componente para o sucesso do empreendedor chamado sorte. E ninguém fala nisso. Era o primeiro filme do produtor inglês e o meu também e ele foi muito bem-sucedido. Então não era uma questão de experiência. A gente cometeu uma de série de erros e deu tudo certo. Fala-se muito pouco sobre isso. Como você faz tudo certo e dá tudo errado e como você faz tudo errado e dá tudo certo. Então além de você empreender e aprender a empreender, existe sim, um componente chamado sorte”.

Exercitando os músculos

“Inteligência emocional é um músculo, amor é um músculo. O novo livro do Alain de Botton fala muito isso. É um músculo que você exercita. É a sua capacidade de falar para o outro o que você precisa e escutar do outro o que ele necessita. E assim é a vida e alguns lugares você vai abrir mão e em outros vai conseguir o que você quer. Não, você não vai ter tudo. Mas é melhor viver assim do que viver em angústia, cometendo os mesmos erros. Talvez seja isso que pessoalmente eu me sinto muito conectada. Não gostaria que as pessoas cometessem os mesmos erros nos mesmos lugares. Eu acredito que é possível você fazer melhores erros. Não necessariamente acertar, mas sim, é possível ter essa relação de expansão, de melhora, de mais consciência de si próprio. Acho que a palavra do ano é autoconsciência”.

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