O valor das cores da estilista Flavia Aranha

Fala galera,

Folhas de indigofera fermentadas espalhadas entre cascas de romã cozidas e raízes de ruivinhas. Poderia ser um tradicional mercado municipal de uma cidade interiorana ou um sofisticado restaurante de cozinha molecular de alguma metrópole. Entretanto, é nas criações da estilista Flavia Aranha que tais ingredientes exóticos ganham vida, e não nos pratos de um chef famoso.

Ao entrar na loja-ateliê de Flavia, localizada em uma casa no bairro da Vila Madalena, na zona oeste de São Paulo, tem-se uma nítida impressão de leveza. Não há música alta, a iluminação é quase toda natural e os tecidos esvoaçantes das peças de roupas expostas nas araras são tingidos de cores suaves.

Fotos: Thays Bittar | Reserva

“Quando fiz minha primeira coleção, inteira de roupas de algodão com tons de chá, algumas clientes me perguntavam se eu só tinha uma cor”, diverte-se Flavia. “Eu dizia que não, que eram dez. Estava tão envolvida no processo produtivo que não entendia como podia surgir essa dúvida, mas estamos acostumados a um pantone de certa forma berrante, então fazia sentido”.

Podia até fazer sentido, mas não fez com que ela mudasse seu rumo. “O tingimento natural é o coração da nossa marca”, conta a estilista. É nesse processo que ela usa as flores rosas-claro da indigofera, as cascas de romã, as ruivinhas e muitas outras coisas, de pau-brasil à casca de jabuticaba. O resultado da junção entre o processo artesanal e as matérias-primas de pequenos fornecedores espalhados pelo Brasil estão nas blusas e vestidos concorridos da marca.

“O que eu sempre quis foi voltar para a terra e refazer todos os elos da produção até chegar ao produto”, explica Flavia. A vontade surgiu de uma desilusão. Depois de formada na faculdade, Flavia trabalhou por cerca de 4 anos na indústria da moda. Deixou de lado sua veia criativa e artística – seu trabalho de conclusão de curso chamava-se “Mulheres que Sopram a Vida – e passou a operar com questões como custo, ranking, volume e estoque em uma grande marca de fast fashion.

“Foi legal ter uma oportunidade de conhecer como funciona aquela indústria, para o bem e para o mal”, diz Flavia. “Mas eu olhava para mim mesma, para meu trabalho, e simplesmente não me enxergava”. O momento decisivo para tal realização, conta ela, deu-se em uma viagem de trabalho que realizou para a China e a Índia. Ao deparar-se com a condição de trabalho dos empregados da indústria têxtil, decidiu que não gostaria de fazer parte daquilo.

“Eu não quero negar o futuro, nem propor uma volta ao passado. Os tempos são os tempos”, diz. “Mas se a lógica da indústria for sempre a de produzir mais para vender mais, se ela não entender que sua força precisa atuar em uma mudança de sistema, nenhuma tecnologia vai nos salvar. Não é uma questão de interesse na mudança, até porque ele não existe, mas de necessidade mesmo”.

Flavia o faz. Com o projeto Circular, que adota em sua loja, propõe a clientes que levem peças antigas em troca de descontos em peças novas. As roupas usadas, então, são revendidas por uma fração do preço original no site da marca. A renda gerada é utilizada em projetos socioambientais que ajudam os grupos produtivos que trabalham com a marca, localizados principalmente em regiões isoladas e com pouca estrutura.

“Todo mundo ganha. A gente estimula a consciência do consumo de quem pode comprar. Será que a pessoa precisa de mais uma roupa?”, questiona. “Dessa maneira, a gente dá acesso ao nosso produto para quem normalmente compartilha nossas ideias e valores e que não possui dinheiro para comprar uma peça nova. E ainda procuramos gerar uma independência para esses grupos produtivos. Isso gera consciência acerca dessa cadeia, e a consciência muda a maneira como você se relaciona com o que compra”, explica Flavia.

Globalmente, a indústria da moda gera cerca de 3 trilhões de dólares anuais e um rastro considerável de problemas ambientais e sociais. Uma terra de gigantes em que muitos não se importam muito por onde pisam. Mas onde também habita gente como Flavia. “Essa coisa de dominar o mundo não é para mim”, brinca a estilista. “A gente tem que resistir pelas beiradas”.

beijos

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