Eric Faria e Ricardo Lima, do Worldpackers: a experiência é a alma do negócio

Antes de se encontrarem pelo mundo, os amigos Eric Faria e Ricardo Lima se reuniam em um café na Avenida Paulista para reclamar da vida que levavam em São Paulo. A carreira em grandes empresas e as longas horas dentro de um prédio não faziam mais sentido para eles. O primeiro a deixar o posto como auditor contábil foi Eric, que partiu para uma temporada de 6 meses nos Estados Unidos que terminou só 4 anos depois. Logo depois foi a vez de Ricardo, que deixou seu cargo em um banco para passar 3 anos viajando pelo mundo. A dupla se reencontrou outra vez em San Diego, na Califórnia, e criou a Worldpackers, uma plataforma que conecta viajantes que querem viver experiências a hospedagens que oferecem estadia em troca de uma ajuda na administração, na organização, na limpeza ou até mesmo na promoção dos lugares nas redes sociais.

“A ideia não é encontrar funcionário para as propriedades, tampouco um passeio para os viajantes. O mais importante é a colaboração”, diz Eric Faria. Tanto ele quanto Ricardo já tinham experimentado essa troca em suas viagens pelo mundo e a dupla percebeu que faltava uma plataforma que fizesse essa conexão. “Foi uma oportunidade de mostrar a viagem como ferramenta de autoconhecimento, uma maneira aprender coisas diferentes”, conta Ricardo. “Como essa experiência mudou a nossa vida, queríamos oferecer essa ideia para mais gente”. Muito mais gente. Desde 2014, quando foi criado, o Worldpackers já conquistou 1 milhão de usuários e oferece mais de 7 mil oportunidades em 170 países. A empresa que começou em uma van que estacionava nos cafés americanos para usar a internet hoje tem 20 funcionários e já recebeu mais de 8 milhões de reais em investimentos.

O que não mudou foi o objetivo dos fundadores. Eles continuam explorando o mundo – Ricardo vivendo na Califórnia e Eric em São Paulo – e querem levar o negócio cada vez mais longe. “Nosso propósito é que essas experiências colaborativas na hora de viajar sejam parte da cultura”, diz Eric. “A gente acredita que isso vai mudar o mundo mesmo”. A seguir, a dupla conta o que aprendeu nessa trajetória.

Fotos: Thays Bittar | Reserva

Do ter para o ser

“Quando saí do banco meu pai falou: você está doido? Vai largar a carreira, o dinheiro? Mas eu olhava para o lado no trabalho e pensava que não era aquilo que eu queria. A sociedade tem esse conceito de sucesso no dinheiro, mas para mim o sucesso é estar bem com você mesmo. O resto é consequência. Antigamente eu achava que tinha que trabalhar muito para me aposentar e ser feliz um dia. Hoje viajar é um trabalho. Quando você faz o que você acredita, o trabalho passa a ser algo leve. A geração dos nossos pais não teve o luxo de olhar para o propósito. Era a geração do ter: casa, carro… A nossa geração é do ser”, conta Ricardo Lima.

Embrace your weird

“Você pode ser você mesmo, não precisa se adequar às coisas que alguém falou que são importantes. É preciso se perguntar o que você quer, o que faz sentido. Abrir um negócio, viajar? Nem sempre a resposta é imediata e nunca vai existir a hora perfeita, com todas as respostas na mão. Então tem que se jogar e se abrir para o que você, lá dentro, já sabe que é o próximo passo. Que te leva para outro passo, e para outro… A gente pode fazer muitas coisas, mas se limita a fazer as mesmas coisas. As pessoas mais bem-sucedidas são esses mais malucos, que foram fazer o que acreditaram mesmo. É duro, tem muito trabalho, muito desafio, mas o outro caminho é você viver uma vida que não é sua”. R.L

Ajustando prioridades

“Sempre busco ser mais autêntico com meus valores, ser eu mesmo. É fácil acabar fazendo coisas para agradar os outros, matar tempo… Eu vim morar na Califórnia por alguns motivos. Um é o aprendizado, porque aqui tem muito conhecimento de tecnologia. E o surfe com certeza é um dos principais. Moro em Santa Cruz, onde tem ondas incríveis. Ando de skate, surfo, trabalho remotamente… Tento equilibrar a vida, sempre. Estar comigo, com pessoas que eu gosto, comer bem. Está tudo dentro da gente. É cada vez ter mais isso claro e viver esses valores”. R.L.

Viajar é preciso

“Se a gente não tivesse viajado, não existiria a Worldpackers. Assim como as melhores ideias vieram de pessoas que foram viajar. O Einstein foi aceito na academia de física depois de ter feito uma viagem. A escritora de Harry Potter também teve o insight numa viagem. Então não é que você tem a eureca. Você tem acesso a informações distintas e encontra similaridades. Eu fiquei 4 anos num hostel, conheci mais de 20 mil pessoas. Se você vê que todas elas têm o mesmo desejo e do outro lado também estão querendo o mesmo, o que faz? Junta os dois. Só estava faltando a ponte”, conta Eric Faria.

Usando as experiências

“Para empreender a gente passa por tantos desafios, é um leão por dia. Tem que ter paciência e entender o lado das outras pessoas: cliente, investidor, quem trabalha junto… Nas minhas viagens aprendi sobre resiliência e paciência. Como eu vim do banco e o Eric de uma consultoria, a gente sabia como lidar com as burocracias. Tendo experiência previa fica mais fácil empreender. Muita gente quer empreender muita nova, mas você não deixa de ter algumas ferramentas que a vida vai ensinando. A gente vive num momento em que ainda existem muitos processos”. R. L.

Educação da vida

“Eu vi uma entrevista com o escritor [Walter Isaacson] que fez as biografias do Steve Jobs, Leonardo da Vinci, Benjamin Franklin, entre outros. São pessoas que mudaram o mundo. Na entrevista, perguntaram: qual a similaridade entre esses três gênios? Qual foi o momento de eureca? Ele falou: de tudo que eu vi não existiu o momento eureca. O que existiu nessas pessoas é que nenhum dos três foi para a escola. Por não ter alguém falando para eles o que era certo ou errado, eles conseguiram se manter curiosos. Quando você vai para a escola te perguntam: você vai fazer engenharia ou artes? Não pode fazer o dois, tem essa pressão. E eles não tiveram isso. O Steve Jobs era programador e caligrafista. O Leonardo da Vinci começou a estudar arte depois da matemática. Eles não tiveram escola, mas tiveram informação e experiências. As grandes ideias não vieram de uma eureca, mas da intersecção de conhecimento distintos”. E.F.

Construindo comunidades

“Eu sempre digo em palestras que é preciso entender muito bem em que você acredita e o que quer mudar. Entender qual é o meu propósito, a dor que eu quero resolver no mundo e qual é o meu talento. Preciso montar um grupo de pessoas que partilham essa dor e entregar valor para elas. Eu falo sobre propósito porque se você fizer algo em que não acredita, você vai ficar de saco cheio no meio. E vai frustrar as outras pessoas, queimar sua reputação e perder tempo da sua vida. Tem que fazer de coração mesmo. Quanto mais você quer mudar como as coisas são, mais barreiras vai ter. Tem que contar sua história, ser verdadeira, acreditar nela e não pode desanimar. Porque sua missão é mudar, é fazer acontecer. Não é a do outro”. E.F.

Parcerias verdadeiras

“Desde o começo muita gente que sempre curtiu viajar nos ajudou. Tinha um lance da comunidade, do propósito comum, de querer fazer acontecer. Trabalhar com pessoas que compartilham disso é a única coisa que importa. Se não fosse isso a gente não estaria aqui. A gente não é uma empresa enorme. No começo todo mundo trabalhava de graça. Quando chegou o primeiro investimento foi quando todo mundo largou seus empregos para virar funcionário oficial. Foi quando todo mundo começou a ganhar alguma coisa”. E.F.

Levando além

“O próximo passo é sempre impactar mais gente. Quantas vidas a gente consegue transformar, como fazer isso de um jeito mais leve e facilitar a vida de quem viaja e de quem recebe? Quando você tem um negócio que tem um propósito, parte da missão é fazer mais. Ainda tem muita gente que não nos conhece, tem medo de viajar, quer e não sabe como. É mostrar a importância de viajar e do autoconhecimento”. R.L

Investidores com propósito

“Nosso objetivo é fazer com que mais pessoas tenham experiências como a nossa: viajar e ter experiências colaborativas. O objetivo é ter isso como parte da cultura, ter propriedades e viajantes educados para isso, uma legislação adequada. A gente acredita que isso vai mudar o mundo mesmo. Então a gente tem várias formas de chegar lá. Os investimentos foram a forma mais rápida e efetiva de ter mais pessoas viajando, de fazer nosso sonho acontecer, que é fazer disso uma cultura. Foi um meio de poder chegar lá. Na época fazia muito sentido o investimento, tinha muita coisa nova rolando e parecia ser o caminho mais promissor. A gente teve a felicidade de ter fundos investidores anjos que entendem nosso propósito. Isso é essencial”. E.F.