Claudia Vidigal, do Instituto Fazendo História: transformando as relações nos abrigos

Fala galera,

Contar histórias é a missão de Claudia Vidigal. A psicóloga é a idealizadora do Instituto Fazendo História, organização não governamental que tem como missão melhorar o atendimento prestado a crianças e adolescentes em abrigos públicos, advogando e promovendo uma comunicação mais humana e a valorização da singularidade dos jovens abrigados em tais instituições.

“Nosso papel é humanizar e fazer as crianças que estão nesses abrigos enxergarem as relações como uma coisa boa”, explica Claudia. “Quando estabelecemos uma relação respeitosa e atenta com esses jovens, conseguimos provar por A mais B que uma relação humana pode valer a pena. Em muitos momentos, essa coisa de atenção e cuidado é nova para eles”.

Fotos: Thays Bittar | Reserva

Tais relações podem ser estabelecidas de diferentes maneiras. Uma delas é através da confecção de álbuns de histórias com as crianças que vivem em abrigos para resgatar sua identidade e autoestima. Construídos com a ajuda de voluntários adultos, os álbuns contêm relatos, depoimentos, fotos e desenhos que fizeram parte de suas vidas. “Refletir sobre a própria história é altamente transformador”, diz Claudia. “Quando a gente consegue falar ou escrever sobre ela, nos livramos de meios de expressão mais perversos e menos saudáveis. As crianças precisam saber quem elas são”.

Com o tempo, o instituto também passou a diversificar suas áreas de atuação. Hoje, além dos álbuns do Fazendo Minha História, também desenvolve outros seis projetos. Um deles é o Apadrinhamento Afetivo, que propicia convivência familiar e comunitária para as crianças e adolescentes em abrigos. Jovens entre 10 e 17 anos que têm poucas chances de serem adotados ou retornarem para suas famílias ganham padrinhos ou madrinhas que se voluntariam para tornarem-se referências afetivas. Depois de um processo de preparação, os voluntários viram mentores de uma criança, que acompanham semanalmente durante um longo tempo, dentro e fora do serviço de acolhimento.

Evidentemente, Claudia não faz isso tudo sozinha. O Fazendo História depende e confia amplamente no voluntariado. “Eu sempre me emociono. Salas cheias de gente querendo ajudar crianças que nunca viram na vida”, diz a psicóloga. “Isso é um pouco a matriz do ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente]. Entender que os filhos dos outros são meus filhos e que qualquer criança é nossa responsabilidade enquanto sociedade”.

Desde 2005, Claudia estima que o Fazendo História já tenha atendido pelo menos 5 mil crianças e adolescentes. Atualmente, a ONG está presente em cerca de 100 instituições. A história que deu origem a tantas outras, contudo, tem sabor agridoce. No começo dos anos 1990, Claudia realizou um trabalho voluntário em um grande abrigo no bairro do Pacaembu. “Eram 450 crianças enfileiradas em bercinhos que não sabiam nada sobre elas. Nem os educadores sabiam muita coisa, era difícil até de chamá-las pelo nome”, lembra Claudia.

Seu trabalho à época era acompanhar a pequena Natalie, de cerca de dois anos. “Minha função era levá-la para tomar sol. Via que com muito pouco a gente fazia uma transformação muito grande. Quando comecei lá, ela nem pisava no chão. Depois de um tempo, já andava, me abraçava”, conta. “Um dia fui para lá e a Natalie não estava mais no abrigo. Nunca mais soube dela”.

Desde então, quem nunca mais deixou os abrigos foi Claudia. “Não tenho uma razão para essa ser a causa da minha vida”, diz. “Percebi que faria isso para sempre no primeiro dia em que pisei em um abrigo. A gente sempre busca nosso propósito e, no meu caso, essa vontade de cuidado era o que eu tinha para dar e, ao mesmo tempo, o que o mundo precisava”.

beijos,

QUER SER AVISADO SOBRE NOSSOS PRÓXIMOS POSTS?