Patricia Abbondanza, da Dedo de Moça e FoodLab: negócios a todo o vapor

É impossível dizer quando Patricia Abbondanza se tornou empreendedora. Desde cedo, ela soube que queria criar algo em que acreditasse e que transformasse. Na faculdade de jornalismo, percebeu que passava mais tempo lendo as receitas de Rita Lobo na internet que interessada nos assuntos de seu curso e se matriculou no faculdade de gastronomia. Logo já estava vendendo pão de mel, panetone e bolachinhas aos colegas universitários. Com os dois diplomas na mão, embarcou para Nova York para um curso de especialização em confeitaria.

Voltou ao Brasil com vontade de contar tudo o que tinha aprendido e foi parar numa escola de culinária, onde descobriu sua paixão por ensinar. Mais uma vez a veia empreendedora gritou mais alto e ela fundou a Dedo de Moça, uma empresa que começou oferecendo serviço de personal chef. Desde 2008, tanto Patricia quanto a plataforma já se reinventaram diversas vezes – até um aplicativo de aulas de culinárias via live streaming ela criou em uma aceleradora de startups em Nova York. Há dois anos, depois de seu projeto de tecnologia fracassar, ela começou a transformar a Dedo de Moça em uma comunidade de empreendedores em gastronomia. Ao lado da turma da Marcas com Sal, também criou o FoodLab, um curso imersivo para quem quer desenvolver projetos na área.

Nos dias 7 e 8 de abril, o projeto que já formou mais de 100 empreendedores chega à quinta edição. Uma turma de 25 alunos vai passar dois dias tendo lições sobre temas como tendências de mercado, modelo de negócios, marketing digital e gestão financeira, supervisionados por uma turma de mentores. Também participam em palestras e painéis profissionais experientes como Juliano Seabra, que por 5 anos dirigiu a Endeavor Brasil, Sérgio Bueno de Camargo, dono da Cia. Tradicional de Comércio, e a chef Janaína Rueda. “Eu preciso ver um propósito no meu trabalho. Quando comecei a dar aula de culinária à domicílio eu sentia que estava fazendo diferença. Quando veio o boom da gastronomia, pensei: será que tem algo mais importante para fazer? Hoje meu papel é disseminar os aprendizados que tive”, diz. “Acredito que as pessoas podem transformar sua paixão em ganha-pão”. A seguir, Patricia compartilha um pouco de sua experiência – e o que ensina (e aprende) aos empreendedores.

Fotos: Thays Bittar | Reserva

Por que e não o que

“Na gastronomia as pessoas se apaixonam muito pelo o que e esquecem o por que. Quando alguém me fala ‘quero abrir uma doceria’, a primeira coisa que eu pergunto é por que. ‘Ah, porque eu gosto de trabalhar com doce’. Então não necessariamente é uma doceria o seu negócio. As pessoas acabam se apaixonando pelo o que e os o ques são engessados. Então se eu quero trabalhar com doce posso abrir uma doceria ou fazer doces para casamento, mas há tantas outras opções. Você pode ser uma influenciadora, prestar consultoria, produzir conteúdo, ter um e-learning sobre doces… Existem várias outras possibilidades. Então perguntar o por que é um exercício importante. As outras opções provavelmente são grandes oportunidades porque tem menos gente fazendo”.

Saia da casinha

“O mercado da gastronomia no Brasil ainda é muito focado em estabelecimentos, como restaurantes e bares, mas tem muita coisa bacana para ser feita. Pensamos os produtos como parte da economia informal e na verdade tem muita coisa legal para ser construída. A gente está em um momento bom da gastronomia e dá muita vontade de ajudar essas pessoas a fazerem coisas significativas, de impacto, e que sejam lucrativas também. Quando você se prende à ideia de um estabelecimento, muita gente fica paralisada. Quando eu comecei, fui na gráfica e fiz um cartão com meu nome e meu telefone. Você já pode começar com um cartão. Ou pode começar sem cartão. Mas não precisa ser com a doceria decorada, toda frufru. Isso é uma coisa importante para ser mudada nesse mercado porque incentivaria muita gente a empreender”.

Sonhe grande, comece pequeno

“No FoodLab temos a preocupação de dar muita inspiração, mas também é importante um pouco de pragmatismo. De falar: olha, gente, não é fácil. A gente tenta preparar os empreendedores para a vida real. Tem uma parte que é teoria, mas na vida real a gente sabe que nem tudo dá para ser feito com excelência. Eu digo: não economiza no sonho, mas começa devagar. Dá o primeiro passo com mais economia porque também tem a questão de como eu invisto meu dinheiro. Eu já perdi dinheiro, então tenho a preocupação de dizer que é importante ousadia em alguns momentos, mas temos que tomar cuidado para arriscar na hora certa”.

Negócio de risco

“Acho que o risco sempre existe. Eu tenho mais medo de não arriscar. A gente tem que ir para a ação. É super importante planejar e saber para onde está indo, isso é fundamental. Mas você só aprende fazendo. Você só sabe se aquela ideia é incrível quando você faz. Aí você descobre se a ideia resolveu o problema de alguém. Não pode falar ‘depois eu faço’. É ir lá e fazer”.

Quando o fracasso ajuda

“Quando o aplicativo que criei começou a não dar certo, tive que desistir desse negócio para salvar o outro. Mas eu falei: não é porque não deu certo que eu vou desistir de ter alguma coisa que faça sentido. Montei um workshop sobre negócios para personal chefs e vi muitas outras pessoas, como donos de restaurantes e bufês, com dificuldade de implementar, fazer crescer e estruturar o negócio. Foi aí que, com a Marcas de Sal, pensamos em falar com o pequeno empreendedor e criamos o FoodLab. Eu tinha acabado de sair do aplicativo e já emendei nisso. Foi um negócio forte, quase quebrei mesmo. Teve dias em que eu pensei: vou vender tudo e arranjar um emprego. Mas vi que precisava de outra coisa. Pior do que estava não ia ficar”.

Precisamos falar sobre o erro

“Tudo o que a gente faz pode dar errado. Mas o medo de errar, de fracassar e do julgamento paralisa muito. Não tem que ter vergonha quando algo dá errado. A gente tinha que falar mais abertamente sobre isso. No empreendedorismo, como em tudo, a gente fala muito sobre as histórias de sucesso. Em um dos FoodLabs, a chef Bel Coelho palestrou sobre como o fracasso é um dos ingredientes do sucesso. E isso impactou as pessoas de uma maneira incrível. Porque a gente só vê a Bel na revista, o lado bom da coisa, e acha que essas pessoas não erram. Então vamos falar sobre isso porque é uma maneira de encorajar as pessoas a errar. Vamos então aprender a errar gastando menos tempo, menos dinheiro. Mas se permita errar, porque senão a gente não faz nada diferente.”

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