Mari Corrêa, do Instituto Catitu: levando as vozes dos povos indígenas além das fronteiras do Xingu

Fala galera,

Quando pisou pela primeira vez no parque Indígena do Xingu, a cineasta Mari Corrêa se sentiu em casa. O ano era 1992 e ela chegava ao norte do Mato Grosso acompanhada de uma equipe médica que faria um treinamento de agentes de saúde. Depois de ouvir histórias de um amigo, queria fazer um documentário sobre a relação da cultura indígena com a medicina ocidental. As primeiras imagens que registrou no parque foram feitas com uma câmera VHS emprestada. Depois delas, vieram mais de 30 filmes sobre os povos indígenas, premiados em festivais pelo mundo todo. Mas Mari não conta sozinha essa história.

Desde 1998, a cineasta organiza oficinas para formar realizadores indígenas, que dirigem e produzem os filmes ao seu lado. O objetivo não é apenas ensiná-los a operar uma câmera, mas sim dar uma ferramenta para levar suas vozes além das fronteiras do parque. “Há um preconceito muito grande da sociedade em relação às populações indígenas”, diz. “Dar a elas os meios para se expressarem é uma forma de lutar contra isso e permitir que contem suas histórias e mostrem quem são do jeito que querem”. Depois de dez anos como codiretora da ONG Vídeo nas Aldeias, ela criou, em 2009, o Instituto Catitu – Aldeia em Cena. A associação propõe aos povos indígenas novas possibilidades de expressão, transmissão e compartilhamento de suas visões de mundo e de seus conhecimentos.

Foto: Thays Bittar

Um dos projetos que realiza à frente da organização que fundou é a formação audiovisual das mulheres indígenas. “Quando cheguei ao Xingu, nenhuma mulher que conheci falava português. Os homens eram os interlocutores que faziam a ponte entre a aldeia e mundo não-indígena. A mulher é muito valorizada no mundo indígena, mas elas perderam por causa do contato com o mundo do branco, que criou uma assimetria”, conta. “Eu sempre chamei as moças para participar das oficinas, mas nenhuma aparecia. Aí pensei: será que se eu criar uma formação audiovisual só para as mulheres muda alguma coisa? Porque os homens sempre tomam a dianteira”, diz.

Em 2011, depois de uma primeira experiência durante o Encontro de Mulheres do Parque Indígena do Xingu, ela convidou a cineasta Tata Amaral para participar da primeira formação de mulheres. A oficina reuniu 22 mulheres das etnias Kawaiweté, Kamaiurá e Ikpeng e resultou no filme “A Cutia e o Macaco”, inspirado em uma canção de ninar kawaiweté. Jovens de 18 anos, mães com os filhos a tiracolo e lideranças mais velhas participaram da oficina, que depois foi reproduzida em outras aldeias indígenas.

“Como você empodera dentro da aldeia? O vídeo, a arte e a comunicação são ferramentas que podem ser uma revolução sem precisar sair da aldeia”, explica. O trabalho de Mari continuou com as rodas de conversa das mulheres xinguanas, que buscam fortalecer o protagonismo feminino. O projeto, liderado pela Associação Yamurikumã, correu o Xingu de norte a sul para que as mulheres das aldeias pudessem discutir e defender suas ideias e seus direitos dentro e fora da terra indígena.

Agora, a cineasta investiga como as mulheres indígenas estão sentindo os efeitos das mudanças climáticas. “O Xingu virou uma ilha no meio de um grande deserto. Para vários povos, a floração dos ipês anuncia a chegada das chuvas e é a época em que eles começam a plantar. Mas esse indicador não está mais funcionando, então eles plantam, o sol continua forte e queima as mudas”, conta. Em 2015, a cineasta foi à Conferência do Clima, em Paris, para exibir o documentário “Para Onde Foram as Andorinhas”, que retrata o impacto dessas mudanças na vida nas aldeias. “Os povos indígenas são essenciais para a gente tomar outro rumo. São nossos guardiões da floresta”.

beijos

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