Max Nolan, da Dervish: redes precisam de espiritualidade

Chego à entrevista com Max Nolan dizendo que procurei detalhes sobre ele no site da Dervish Cultural Insights, uma das empresas que faz parte, mas não encontrei muita coisa. Ele me responde: “A Dervish tem site?”. Sim, tem, respondo. Uma página negra com o nome da empresa – e nada mais. A reação de Max não poderia ser mais coerente. Ele não é diretor da companhia, e sim parte de uma “colônia de empreendedores”. Começou há 5 anos com a Dervish, uma consultoria de marca que atende grandes organizações como Nestlé, Ambev e Bradesco, investigando sua cultura para trabalhar posicionamento de marca, comunicação, defesa de causas. E hoje o “grupo” de Max abrange seis negócios fundadas por ele, entre eles uma agência de publicidade, a We Humans, e um coletivo de ativistas sociais, o Coletivo Lua, que conecta empresas com as causas que querem apoiar.

Esse engenheiro mecatrônico de formação fez carreira no marketing de grandes companhias, foi diretor de planejamento de uma agência de publicidade e acabou saindo para montar a Dervish. Mas em menos de um ano não estava feliz nela. Hoje se define como cultural hacker, alguém que se infiltra no sistema e redefine os códigos da cultura do lugar, mas não era assim que se via naquela época. Queria inovar, mas estava preso a velhos padrões. “Ganhava menos, trabalhava mais, me desentendia com minha sócia por querermos rumos diferentes para a empresa”, diz. Tudo isso – e mais um funcionário que brigava para ter horários flexíveis – levou Max a repensar completamente os rumos e a gestão de Dervish. “Queria que os processos também fossem inovadores. Foi quando descobri o mundo da vida em rede”.

Nesse mundo, não tem essa de salário, pro-labore, CNPJ, escritório e chefe. Os profissionais se unem espontaneamente por cada projeto que batalham. “A cocriação é muito bonita de se ver, inteligência coletiva é sempre maior que a individual”, diz Max. Aqui, ele conta um pouco mais da sua rede de trabalho – e de vida.

Fotos: Thays Bittar/Reserva

Guarde um momento para conectar


“As reuniões acontecem a cada 15 dias e são chamadas pulsos: momentos em que cada um divide o que está fazendo e se reconecta com o grupo. Tudo é transparente, inclusive os gastos. Todo mundo sabe quanto o outro levou naquele projeto e, em alguns momentos, colocamos o montante na roda para que cada um diga o quanto acha que merece ganhar. Se estiver destoante da opinião do resto do grupo, conversamos até chegar a um consenso. A rede é um espelho, temos muito a aprender dentro delas.”

Crie suas leis

“Na Dervish, são 14 sócios. Ao todo, o grupo tem 80. Todo mundo prospecta projetos e ninguém é obrigado a trabalhar com ninguém. Os profissionais se unem por empatia. Todo mundo é sócio, todo mundo decide com base em nas leis do pertencimento, da ordem e do equilíbrio do dar e receber, que aprendi com um chefe que era monge budista. E, muito importante, ninguém pode ser expulso dessa rede – isso deixa todos muito confiantes. Se não está funcionando, o que é raro, a pessoa não consegue atrair projeto ou formar equipe e acaba saindo por si, pois redes são auto-reguláveis. É um passo além da horizontalidade, mas tem que se basear em leis maiores para dar certo. As redes precisam de espiritualidade para se manterem.”

Dê chance para a mudança

“Eu era um líder bem autoritário, mas fui mudando, treinando minhas qualidades de escuta profunda. Hoje consigo de fato ouvir e respeitar a opinião do outro pois definimos que não há certo e errado. Sou o líder para mediar os conflitos, mas saímos dessa polarização de quem tem razão. Os desejos são acolhidos pelo grupo, que decide pelo que é melhor para o grupo. Essa autonomia traz inovação e as pessoas ficam mais felizes.”

Junte futuro e passado

“As respostas para nossas questões estão na história, são ancestrais. O trabalho em rede é ancestral, está em nosso DNA, sabemos como fazer. Mas claro que não é só isso. A gente resgata esse saber do passado com um olhar futurista e daí surge a inovação. As ferramentas tecnológicas permitem que a gente trabalhe em rede de maneiras mais eficientes. Não tenho nada contra ter um iPhone, pelo contrário.”

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