Alexandre Borges, da Mãe Terra: unir ideal e negócios é possível

Alexandre Borges cresceu subindo em árvores e regando a horta de casa no interior de São Paulo. Daí foi natural que, depois de passar pela faculdade de administração, por consultorias de gestão e de montar uma startup, a Flores Online, que administrou por cinco anos, parou para refletir. “Percebi que não queria aquele caminho que todos estavam trilhando e retornei às minhas origens”, diz. Entenda-se por origens a adolescência, quando fazia granola para vender para as amigas da mãe ou levava seus lanchinhos naturais nas viagens com a turma de faculdade. “Naquela época, comida natural era visto como algo chato, eu queria transformar essa história”, diz. Assim, mais de uma década depois, em busca de um negócio para chamar de seu, foi procurar o dono da Mãe Terra, uma empresa de alimentos naturais que existe desde 1979. “Eu tinha uma ligação emocional com a marca, meus pais consumiam os produtos quando eu era criança”, lembra.

A proposta foi aceita. Alexandre levou a marca e o know-how, mas trouxe uma maneira mais contemporânea de fazer comida natural. “Eu percebi cedo que tinha que ter sabor e prazer, pois as amigas da minha mãe não curtiram minha granola natureba”, conta, rindo. A estratégia deu certo. Em 10 anos, a Mãe Terra se consolidou em seu mercado, fez parceria com Bela Gil, é a opção gratuita de snacks nos vôos da Gol e, olha só, foi comprada pela gigantesca Unilever no ano passado, que agora prepara a marca para se transformar em algo internacional. Alexandre vai continuar à frente do negócio. E conta aqui como adaptou seu idealismo à lógica do mercado.

Fotos: Thays Bittar | Reserva

Erotize seus produtos

“Alimentação natural era vista como algo de hippie ou de rico. Não tinha sabor ou era cara demais. Eu queria tirar desses nichos, fazer comida boa, sem aditivos, se possível orgânica, que fosse saborosa. Então criamos novos produtos, os snacks, que podem ser uma porta de entrada para uma alimentação mais saudável. Queria erotizar o natural, o sustentável. Fizemos embalagens bonitas, isso é essencial. Natural e orgânico não podem estar associados à privação e ao sacrifício. Tem que ter prazer em comer bem.”

Nunca deixe de frequentar o chão de fábrica

“Quando eu terminei a faculdade, fui trabalhar na Mastercard nos Estados Unidos. Mas fiquei fascinado pelo Whole Foods (a enorme cadeia de lojas de produtos naturais) e fui pedir emprego. Trabalhava no caixa e, um dia, quando a loja estava vazia, o gerente me pediu para passar um pano no chão. Por um momento, hesitei. Eu era o aluno da FGV, mas foi uma quebra de paradigma, uma lição de simplicidade que tinha tudo a ver com o negócio e com a cultura americana. Até hoje, vou na loja arrumar os produtos na prateleira. Preciso ver como as coisas estão, o que estão falando dos produtos. Isso é simbólico e também retroalimenta a estratégia da empresa. Não quero ter a síndrome da matriz, daquele cara que se conforma em ficar na sala da presidência”.

Busque o caminho do meio

“A Mãe Terra sempre foi assediada pelo mercado, mas eu não iria entregar a empresa. Foram 10 anos de sangue e lágrimas, com dificuldades para financiar o crescimento, criando uma cultura organizacional do bem. Somos 150 funcionários, mas até hoje estou no meio de todo mundo, ando pela fábrica. Então veio a proposta da Unilever, que me pareceu a mais sensata. Sim, é mercado, tem lucro etc. Mas nossas características continuam. Vamos continuar a valorizar os produtores locais e orgânicos. E vamos levar isso para o mundo, com a nossa cara, o nosso jeito. Não queria perder isso no meio do universo corporativo, mas também não queria ficar só na ideologia.”

Não perca suas origens

“Minha infância teve a terra como elemento central. Eu tinha que regar a horta e podia brincar em um bosque perto de casa. Morava no limite da zona rural. Fui para o mundo, ganhei bolsa para estudar na Austrália, que abriu minha cabeça para muitas coisas, mas minhas origens estão aqui. O que eu faço é de verdade pra mim. Meu primeiro contato com a Mãe Terra foi em uma feira de alimentação natural em que eu pedi para o meu pai comprar a empresa… Eu já tinha proximidade e fui buscar isso depois que ganhei experiência no mercado. Trabalhei em consultoria de gestão, montei uma startup (a Flores Online, que vendeu cinco anos depois) e depois fui buscar o que era meu sonho de juventude.”

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