Daniel Kafuzo, de A Banca: conexão para um mundo mais justo

Fala galera,

O Daniel Kafuzo tem só 22 anos. Mas é difícil de acreditar quando ele começa a falar de tudo o que já fez. Nascido e criado no Jardim Ângela, em São Paulo, aos 12 anos conheceu uma instituição ali da sua área, A Banca. A ideia era ter aulas de rima e música nas oficinas de hip hop promovidas pelo DJ Bola, fundador da Banca, e sua turma. Mas Bola logo viu nele mais que um aluno: em pouco tempo, Daniel, ou MC Diel, assumiu o posto de professor dos mesmos garotos que eram seus colegas de curso. E hoje é um dos que está à frente desse negócio de impacto social que vem mudando a cara da periferia e da própria cidade, abrindo espaço para outros empreendedores, artistas e conectando periferia a quem vive nos bairros mais ricos. “Eu estava sempre aqui, respirava isso e o Bola me perguntou se eu queria transformar meu sonho em algo que me sustentasse. Eu podia ensinar música e viver do que eu amo.”

Fotos: Thays Bittar/Reserva

A Banca começou com shows e festas de hip-hop nos anos 90, quando a ideia era promover a cultura jovem no bairro que, nos anos 90, foi considerado pela ONU o mais violento do mundo. Com isso, esperava, conseguiria salvar crianças de acabar no tráfico. O projeto atraiu o Instituto Sou da Paz, um dos primeiros a acreditar nessa força, que orientou o pessoal da Banca, na época Marcelo Rocha, o Bola, e Macarrão, a escrever projetos e buscar apoio de uma maneira mais profissional. Depois disso, passou por uma aceleração com a Artemísia, Oscip que apóia negócios sociais. E a coisa profissionalizou de vez. Seus fundadores puderam viver simplesmente do que acreditavam, ensinando crianças em oficinas de hip-hop, produzindo artistas locais e levando as questões sociais da “quebrada” para o resto da cidade. Hoje, são sete pessoas com salário e dedicação integral à produtora, além de colaboradores contratados para projetos específicos.

Nos 10 anos em que participa do projeto, Daniel também cresceu. Prestes a se formar em História, é educador, produtor musical, rapper e vice-presidente de A Banca. Só no colégio Equipe, um dos mais conhecidos da cidade, tem 60 alunos. “Eu chego nas escolas para dar oficinas de hip-hop, o que envolve os 4 elementos: DJ, MC, grafite e break, mas acabo falando de racismo, questões de gênero, inclusão”, diz. Para esses jovens, A Banca produz intercâmbios culturais e sociais urbanos. Os alunos vão até o Jardim Ângela e são recebidos por “anfitriões” locais. Assim, podem entender como é a vida nos lugares nada privilegiados da cidade, passam por vivências bem diferentes das que estão acostumados e se aproximam da galera que vive nesses bairros.

Essa atividade, uma das principais áreas de atuação da Banca hoje, foi rejeitada no início. Quando uma consultoria propôs à equipe dar aulas nas escolas particulares, recebeu um “não” imediato como resposta. A Banca queria voltar seus esforços para as crianças e jovens sem recursos – e continuar nas escolas públicas. Mas logo mudaram o olhar e fizeram a correção de prumo. “Se não criarmos essa conexão, nunca vamos mudar a realidade. Daqui a pouco essa molecada tá em cargos de poder e não terá a sensibilidade de entender a quebrada”, diz Daniel.

Para alunos de qualquer do ensino médio ou de faculdades, A Banca leva também cursos em que discute o acesso à cidade, racismo, gênero, sustentabilidade e cases de sucesso. Sempre com o viés da “quebrada”. “A gente discute tudo isso só levando material de pessoas que produzem dentro das periferias. Escritores, músicos, documentários ou algum negócio de impacto positivo”, diz Daniel. Ao falar de produção cultural, por exemplo, levam o case do o Laboratório Fantasma, o coletivo de moda, cultura e eventos criado por Emicida. Ou Ferréz, escritor do Capão que traz questões da vida marginalizada para seus textos.

O conhecimento da galera da Banca já rendeu consultorias para empresas como a Natura, que precisava entender melhor como seus produtos poderiam atender as classes que têm menos recursos. “Levamos o pessoal do marketing para ver quem consumia os cosméticos e para ouvir as revendedoras, ver de perto suas dificuldades e necessidades.”

Nesse ano, além dos negócios ligados à música e educação, a Banca virou uma aceleradora de negócios da periferia, a ANIP (Aceleradora de Negócios da Periferia), unindo-se à Fundação Getúlio Vargas (FGV) e à Artemísia para selecionar empresas de impacto social. Por enquanto, escolheram apenas empreendedores da Zona Sul paulistana. Entre os 51 inscritos da primeira rodada, 5 irão receber mentoria, apoio para se conectarem com investidores e, ao final, R$ 20 mil para investir no negócio. Ou seja, A Banca está usando sua história de sucesso e transformação para inspirar e apoiar outros a seguirem esse caminho. Sucesso aí, Daniel!

Beijo

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