Michelle Fernandes, da Boutique de Krioula: moda para resgatar a história

Quando uma cliente recebe um pacote com um turbante da Boutique de Krioula, não recebe um simples corte de tecido. “Nossas peças da têm muito significado, não são só um acessório de moda”, diz Michelle Fernandes, que há seis anos criou a marca lá no Capão Redondo, na periferia de São Paulo, bairro que já foi famoso nos anos 90 por ser um dos mais violentos do mundo. E que hoje, apesar de todos os problemas, é berço de muita gente que vem criando e empreendendo com recursos mínimos, caso de Michelle.

Quando ela começou, tinha R$ 150 para comprar os primeiros tecidos, 6 meses de seguro-desemprego para se manter e nada mais. Havia sido demitida do emprego de auxiliar-administrativo e viu nisso uma oportunidade.  Queria ter um trabalho que significasse algo para outras mulheres e que fizesse sentido dentro de sua própria história. “Desde o primeiro dia da marca, meu intuito era fazer produtos para mulheres como eu, negras e gordas, que nunca se acharam bonitas, que não são reconhecidas no mercado. Queria que elas se vissem de uma outra maneira”.

Fotos: Thays Bittar/ Reserva

No início desse ano, a Boutique de Krioula recebeu aceleração da ANIP, a Aceleradora de Negócios da Periferia, junto com a Artemísia e a Fundação Getúlio Vargas. Foi um empurrão para que Michelle fizesse planos maiores. Apesar das dificuldades que enfrentou com a crise e a baixa nas vendas recentes, a empresa deve vender 2000 turbantes até o fim do ano, sem contar os milhares de brincos, hoje um produto que é carro-chefe da marca.

As bijus são desenhadas pelo marido e sócio de Michelle, Célio Campos, que é grafiteiro. Célio deixou o emprego há cinco anos, quando a Boutique de Krioula começou a vender bem, e passou a apoiar o projeto da esposa. Hoje, ele desenvolve não só os desenhos, mas vai atrás de tecnologia para fazer as bijus, cuida da comunicação, do trabalho nas redes sociais e por aí vai.

Quando os dois começaram, levavam seus varais de turbantes para eventos de cultura negra, shows dos Racionais, encontros da periferia. Até que foram aumentando o leque. Passaram a receber convites para feiras, investiram nas redes sociais e criaram uma reputação. Hoje, Michelle é chamada para participar de rodadas de empreendedorismo no Brasil todo, dar palestras sobre o papel da mulher negra na sociedade, abrir os olhos da galera para o valor dessa parcela da população. Quando fizemos as fotos, ela estava chegando de uma palestra no Sebrae em Juiz de Fora (MG), onde foi falar sobre empreendedorismo social.  Mas não pense que só porque a coisa andou que ficou mais fácil. “Sou negra e venho da periferia, estou longe de tudo. Quando eu chego numa reunião de negócios, tenho que me esforçar muito mais para provar que meu negócio é rentável, que aqui do Capão eu posso mandar turbantes para Alemanha, para Portugal e que gente do Brasil todo compra meus produtos”.

Hoje, Michelle se orgulha de manter a família por meio de sua empresa – e de  poder criar a filha, Dandara, de um jeito diferente do que foi criada não só em termos financeiros, mas sociais. “Minha mãe era empregada doméstica, eram outros tempos, havia ainda menos espaço para a mulher negra. Ela alisava meu cabelo desde pequena, até que, aos 24 anos, eu quis mudar. Queria me reencontrar e me curtir mais”, conta. Nesse processo, Michelle raspou a cabeça e passou por uma transição, até que assumiu os cabelos crespos e volumosos. E, nesse momento ganhou o poder que a levaria, mais tarde, a fundar sua empresa. “A mulher negra é protagonista da minha marca. Para ela, o turbante não é só acessório. Ao usar um, ela está resgatando suas raízes. E eu, as minhas”.

Beijos

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