Palavra de mestre: os melhores conselhos que um empreendedor pode ouvir

Aceleradoras, incubadoras e fundos que investem em startups têm se multiplicado no Brasil por um motivo: o ecossistema dessas empresas também cresce a cada dia por aqui. Estima-se que sejam mais de 7 mil hoje em dia, contra cerca de 2.500 em 2012, quando a ideia de começar uma empresa pequena para resolver problemas de um jeito inovador começava a ganhar espaço. A gente reuniu aqui conselhos de quem trabalha com startups todos os dias, seja investindo, dando mentoria, apoiando para o crescimento – e que já passou pela Revista-se. Um pequeno mapa da mina pra quem está dando os primeiros passos.

Fotos: Thays Bittar/Reserva

1. No início, mantenha o foco

Santiago Fossetti, do Kaszek Ventures, um dos principais investidores de startups no Brasil

“Uma startup está competindo com grandes empresas que têm muitos recursos, muito dinheiro, atuam em muitos mercados. Por isso é necessário ter um grande diferencial e é mais fácil ser muito bom em algo específico. O pessoal do NuBank começou querendo ser um banco 100% digital e fazer vários produtos para mexer com esse mercado. É uma área de grande oportunidade pois os bancos na América Latina são lentos, burocráticos, caros.  Mas se deram conta que se fizessem apenas uma coisa nota 10 seria melhor do que oferecer logo no começo tudo o que um banco oferece. Então, passaram dois anos desenvolvendo seu cartão de crédito. São quatro milhões de clientes em quatro anos. E, agora sim, vão partir para outros produtos.”

 

 

2. Comece local, mire global

Alan Leite, da Startup Farm, a maior aceleradora da América Latina

“É comum que os empreendedores brasileiros foquem no mercado local – e tudo bem. Mas precisamos ter também o olhar para problemas que existam em outras partes do mundo pois isso é o que pode trazer escala. Waze nasceu em Israel mas resolveu uma questão de muitas cidades e hoje São Paulo é a cidade com mais usuários. Ao acelerar uma empresa, incentivo que os fundadores tenham esse olhar mais amplo: quanto maior o problema, maior o negócio.”

3. Olhe para o Brasil

André Barrence, do Google Campus

“A gente precisa fugir um pouco da síndrome de que o que está sendo feito de melhor está fora do Brasil. Não adianta fazer comparações com realidades diferentes ao invés de nos colocar como um ecossistema global. Podemos ter referências, já que há boas experiências ao redor do mundo, mas nunca numa visão de replicar. A única diferença entre o Brasil e ecossistemas como o Vale do Silício e Tel Aviv é que eles começaram bem antes e fizeram a lição de casa, olhando as deficiências e oportunidades para construir espaços onde empresas de tecnologia de alto potencial se sentem atraídas para começar e crescer. Temos que andar rápido porque começamos depois, mas não significa que vamos permanecer atrás”.

4. Produto é importante, mas audiência é mais

Amure Pinho, presidente da ABStartups, entidade que reúne 7 mil empresas

“A maioria dos empreendedores que vem até nós pensa primeiro no produto e depois se preocupa em construir um mercado em torno disso. Mas deveria ser exatamente o contrário. Não adianta você sonhar com o seu aplicativo ou com seu produto inovador, se na hora em que ele chegar ao mercado ninguém vai ver. Então, preocupe-se em, antes de tudo, construir uma audiência para o que você vai mostrar. Crie uma rede em seu entorno para que você seja ouvido quando contar a novidade. Faça um blog, um canal no YouTube, faça palestras ou artigos no LinkedIn. Esse passo é o primeiro, antes mesmo de desenvolver seu produto.”

5. Comece logo

Pablo Handl, do Impact Hub, espaço colaborativo para inovação

“Uma das maiores dificuldades para empreender é a incerteza financeira, mesmo que hoje exista um ambiente mais fértil. O melhor é começar muito cedo porque quanto mais jovem a gente é, menos dinheiro precisa. Depois que tem dois ou três filhos, dá mais medo. Outra questão é a inércia. Você abre o caminho caminhando. Existe uma forma de planejar que é ativa. Tem que criar tempo na sua vida para articular, caminhar, dar passos. Empreender com um emprego fixo é mais difícil, mas já se mostrou que 70% dos empresários bem-sucedidos tiveram a ideia enquanto trabalhavam em grandes empresas. O importante é ir a campo, conhecer pessoas, ver o problema que a gente quer resolver. Se precisar, abre a agenda em paralelo à sua vida e faz uma maratona. Achar tempo é fundamental”.

 

6.Veja a inovação por outro lado

Jennifer Rodrigues e Luiz Coelho, da Empreende Aí, escola de negócios da periferia

“Se a gente olhar a inovação só por um prisma, teremos apenas aplicativos de táxi sendo criados. Tem um mundo de possibilidades na periferia em termos de negócios. Um dos alunos criou um aplicativo voltado para que os usuários encontrem o empréstimo consignado com os juros mais baratos do mercado. Os aplicativos que fazem isso ganham por comissão, então acabam indicando os mais caros. Ele achou um jeito de beneficiar o consumidor e vai ganhar de outra maneira. Esse tipo de visão muitas vezes não acontece nas startups comuns, pois os fundadores não têm a visão de quem vive com menos recursos. Tem muito saber na periferia e um mercado imenso.”